Rafael fechou a porta do escritório com força suficiente para fazê-la estremecer no batente, o impacto ecoando pelo corredor enquanto seus dedos permaneciam presos à maçaneta por um segundo a mais do que o necessário, apertando com tanta intensidade que os nós embranqueceram, o maxilar travado a ponto de doer. A conversa com o avô ainda reverberava dentro dele - cobrança, controle, desdém - e, acima de tudo, aquele nome que parecia persegui-lo em cada frase, em cada olhar, em cada decisão: Dante.
Sempre Dante.
Ele puxou o ar devagar pelo nariz, longo e controlado, como se pudesse reorganizar o próprio caos interno com disciplina, como se ainda estivesse no comando de tudo ao seu redor. Precisava se recompor. Precisava voltar ao eixo. Já tinha problemas demais naquela noite para permitir que mais um saísse do controle.
Chega.
Virou-se com decisão, os passos firmes, quase mecânicos, como alguém que se agarra à própria autoridade para não perceber que ela já começou a ruir. Precisava ver Lorena. A inquietação que havia tentado ignorar durante o jantar agora voltava com mais força, rasteira, incômoda, impossível de afastar completamente. Era uma sensação errada, instintiva, como um alerta silencioso que o corpo reconhecia antes da mente.
Atravessou o corredor como se tudo ainda estivesse exatamente onde deveria estar, como se nada tivesse mudado, como se bastasse chegar até ela para que o mundo voltasse ao lugar.
Mas quando entrou na sala de estar, encontrou apenas o mesmo cenário superficial de antes: risadas baixas, conversas vazias, vozes femininas ocupando o espaço com leveza artificial.
Lorena não estava lá.
O passo dele vacilou por um breve instante, quase imperceptível, antes que seus olhos percorressem o ambiente com mais atenção, mais precisão, como se pudessem encontrá-la escondida em algum detalhe que os outros ignoravam.
Nada.
O ar pareceu ficar mais pesado, mais denso, comprimindo o espaço ao redor dele.
- Onde está a Lorena? - perguntou, a voz baixa e firme, sem espaço para rodeios.
As mulheres se entreolharam rapidamente, pegas de surpresa pela mudança súbita de tom.
- Ela foi ao banheiro, querido - respondeu uma delas, despreocupada demais para alguém que não entendia o que estava em jogo.
Rafael assentiu de forma automática, mas a resposta não trouxe alívio. Trouxe desconforto.
Tempo demais.
Ele puxou o celular do bolso e discou para o assistente, levando o aparelho ao ouvido enquanto seu olhar já começava a se deslocar, inquieto, calculando distâncias, rotas, possibilidades.
Chamando.
Chamando.
Nada.
A mandíbula travou com mais força.
Ligou novamente, desta vez sem qualquer paciência.
Nada.
O silêncio agora já não era apenas ausência de resposta - era um sinal.
Errado. Pesado. Instintivamente perigoso.
- Com licença.
Ele não esperou que ninguém reagisse. Já estava se movendo, os passos mais rápidos, mais duros, carregados de uma urgência que ele ainda não nomeava, mas já sentia crescer.
O corredor parecia longo demais.
Vazio demais.
Quando virou a esquina, o mundo pareceu travar.
Os seguranças estavam no chão.
Imóveis.
O assistente também.
Rafael não respirou. Não piscou. Não reagiu.
Por um segundo - apenas um - sua mente se recusou a aceitar o que os olhos viam. O cérebro levou tempo demais para organizar a informação, para transformar aquela imagem em algo compreensível.
Um segundo.
Dois.
Três.
E então algo dentro dele cedeu.
- …não.
A palavra saiu baixa, quase inaudível, como se ainda houvesse uma parte dele tentando negar.
Mas o corpo já se movia.
Ele avançou, ajoelhando-se ao lado de um dos homens, virando o rosto dele com força, os dedos pressionando o pulso em busca de resposta.
Vivo.
Desacordado.
Outro.
Outro.
Todos.
Ninguém morto.
Aquilo não era descuido.
Era planejamento.
Precisão.
Frieza.
Os olhos de Rafael escureceram, a compreensão se formando rápida demais, encaixando cada peça com clareza brutal.
- Dante…
O nome saiu como uma sentença.
Dante manteve os olhos na estrada, a expressão tensa, mas controlada.
- Já veio.
Lorena virou o rosto, o coração acelerando.
- O quê?
Antes que ele respondesse, faróis surgiram no retrovisor.
Distantes.
Mas se aproximando rápido demais.
Rápido o suficiente para não deixar dúvidas.
O carro atrás deles avançava como um predador, ignorando distância, ignorando risco, ignorando qualquer coisa que não fosse o alvo.
Lorena sentiu o estômago despencar.
- É ele…
Rafael apertava o volante com força, os olhos fixos no carro à frente como se todo o resto tivesse deixado de existir. A estrada vazia facilitava, eliminando obstáculos, permitindo que ele levasse o carro ao limite sem hesitação. Um caminhão surgiu de uma estrada lateral, grande demais, lento demais - Rafael não reduziu. Desviou por pouco, por centímetros, o suficiente para evitar o impacto sem perder velocidade.
- Você não foge de mim… - murmurou, a voz baixa, distorcida pela obsessão. - Não foge.
- Ele vai causar um acidente! - Lorena disse, o pânico finalmente rompendo a barreira do controle.
Dante permaneceu focado.
Tenso.
Mas no comando.
- Não.
Pegou o celular, rápido, preciso.
- Agora.
Por um segundo, nada aconteceu.
Então faróis surgiram nas laterais, rápidos, sincronizados, dois carros avançando e se posicionando entre eles e Rafael como uma barreira viva, bloqueando, protegendo, controlando o espaço com eficiência brutal.
Rafael buzinou, desviou, tentou ultrapassar, mas um dos carros fechou sua passagem, o metal quase se tocando, o som áspero denunciando o risco iminente de colisão.
O caos começava a se formar.
Lorena sentiu o peito apertar, a respiração falhando enquanto olhava entre os carros, entre a perseguição e o perigo que crescia a cada segundo.
- Isso é perigoso demais… - disse, a voz mais baixa agora, mais real, carregada de medo.
Os olhos encontraram os de Dante.
- Talvez… seja melhor parar.

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