- Talvez… seja melhor parar.
A voz de Lorena saiu baixa, carregada de medo - não só pelo que estava acontecendo, mas pelo que ainda podia acontecer.
Dante não tirou os olhos da estrada.
- Não precisamos parar, vai ficar tudo bem - disse, simples, firme, inquestionável. - Eu já estava preparado para isso.
Lorena virou o rosto para ele, ainda tensa.
- Preparado?
- Para tudo que envolvesse você sair de lá - corrigiu, sem hesitar.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas carregado. Atrás deles, os faróis se distanciavam, mas continuavam insistentes, agressivos, como se a própria noite fosse rasgada pela obstinação de Rafael.
Lorena engoliu em seco.
- Ele não vai desistir…
A frase saiu como um fato inevitável.
Dante assentiu de leve.
- Eu sei.
Ela apertou os dedos no tecido do vestido, a respiração ainda irregular.
- E se ele sofrer um acidente?
Aquilo fez Dante virar o rosto por um segundo - o suficiente para uma pontada atravessar seu peito, rápida, incômoda, inesperada. Mesmo depois de tudo, mesmo depois de tudo que Rafael tinha feito… ela ainda se preocupava.
Dante desviou o olhar de volta para a estrada.
- Não vai acontecer - disse, mais baixo, mais controlado. - Ele não vai conseguir passar pelos meus carros até estarmos longe o suficiente. E, até lá, eles não vão deixar que ele faça nenhuma estupidez.
Atrás, um dos veículos bloqueadores fechou novamente a tentativa de ultrapassagem de Rafael, obrigando-o a reduzir bruscamente. Tudo era calculado, tudo estava sob controle - ou pelo menos era isso que Dante precisava garantir.
Ele pegou o celular novamente, os dedos ágeis, precisos, e discou. A ligação foi atendida no segundo toque.
- Você? - Nelson atendeu, a surpresa não disfarçada.
- Venha buscar o Rafael - disse Dante, direto. - Ele está na estrada da casa de campo dos Menezes.
Houve uma breve pausa.
- Entendido.
Dante desligou sem acrescentar mais nada.
Por um instante, o silêncio voltou a ocupar o carro, mas dentro dele memórias se moveram - antigas, incômodas. Nelson, sempre ao lado de Rafael, sempre atrás dele, como uma sombra fiel, como um cão treinado. Dante lembrava bem: mãos sendo seguradas, o corpo imobilizado, a risada de Rafael enquanto descarregava nele tudo o que tinha - raiva, frustração, crueldade - e Nelson ali, segurando, assistindo, permitindo.
A mandíbula de Dante se apertou levemente, mas a expressão não mudou.
Lorena observava em silêncio, percebendo mais do que ele dizia e menos do que ele escondia.


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