Lorena permaneceu parada por um instante, absorvendo tudo.
A liberdade… ainda parecia irreal.
O ar do aeroporto era estéril, artificial, ela sentiu os pulmões se encherem devagar, como se precisassem aprender de novo como funcionava.
Dante observava em silêncio, respeitando aquele tempo, mas sem nunca deixar de estar atento ao redor.
Sempre atento.
Os olhos dele varriam o ambiente em intervalos regulares, calculando distâncias, avaliando riscos, antecipando movimentos. Era um hábito antigo, daqueles que se aprendem quando se cresce sabendo que o perigo pode vir de qualquer direção - inclusive de dentro de casa.
- Ainda tem outra opção - disse por fim, a voz calma, firme o suficiente para trazê-la de volta.
Lorena virou o rosto na direção dele.
- Se você for embora agora… - ele continuou - eu consigo fazer você desaparecer.
Uma pausa curta.
- Mas… - Dante inclinou levemente a cabeça, estudando a reação dela - isso tem um preço.
Ela franziu a testa, os dedos se apertando um pouco mais na bolsa que ainda carregava.
- Que preço?
- Você vai viver fugindo.
A resposta veio direta, sem suavizar, sem tentar amenizar o golpe.
- Sempre olhando por cima do ombro. Sempre esperando que alguém te encontre. Sempre com a sensação de que ele pode estar ali, na próxima esquina, na próxima cidade, na próxima vez que você menos esperar.
Ele fez uma pausa, os olhos fixos nela.
- Você o conhece melhor do que eu…
O silêncio que se seguiu foi mais pesado dessa vez.
Mais real.
Lorena desviou o olhar por um segundo, absorvendo aquilo. A imagem de Rafael surgiu na mente - não o homem da estrada, fora de controle, mas o Rafael paciente, o que esperou cinco anos para conquistá-la, o que nunca desistiu de nada na vida.
Ela sabia que era verdade.
Sabia exatamente do que ele estava falando.
Rafael não desistiria.
Nunca.
- E a outra opção? - perguntou, mais baixo, a voz quase um sussurro.
Dante deu um leve passo na direção dela.
Não muito.
Apenas o suficiente para que ela sentisse que ele estava ali.
- Você pode recomeçar.
Ela ergueu o olhar novamente, os olhos encontrando os dele com uma intensidade que surpreendeu os dois.
- Aqui. Agora.
Ele fez um gesto vago ao redor, mas o significado era maior do que o espaço. Era um mundo novo, uma vida nova, um começo que ela mesma teria que construir - mas sem as correntes.
- Eu tenho um negócio importante para fechar no exterior… e, convenientemente, estou precisando de uma consultora jurídica.
Lorena piscou, surpresa. As palavras demoraram um segundo para se organizar na mente.
- Eu não tenho experiência - respondeu quase de imediato, a insegurança escapando antes que pudesse conter. - Desde que me formei… eu nunca trabalhei na área.
A verdade doeu ao sair. Anos de estudo, anos de preparação, tudo jogado fora porque Rafael decidiu que o lugar dela era em casa, ao lado dele, disponível para ele.
Dante soltou um pequeno suspiro, como se aquilo fosse irrelevante.
- Então seja minha assistente.
A resposta veio simples, direta, como se a solução fosse óbvia.
- Você aprende. Observa. Pratica.
Ele a encarou por um segundo, e então um traço leve de provocação surgiu no canto dos lábios.
- E, sinceramente… se você não foi burra o suficiente para continuar com o meu primo até o fim, provavelmente não é burra o bastante para não aprender o trabalho.
Lorena arqueou levemente a sobrancelha.
- Isso foi um elogio?
- Claro - ele respondeu, sem perder o tom leve. - Dos mais refinados.
Apesar da provocação, havia algo mais ali.
Algo quase… cuidadoso.
Como se ele estivesse pisando em terreno que sabia ser delicado, mas se recusava a evitar.
Lorena pensava.
Pesava.
Calculava.
Os dedos ainda apertavam a bolsa, mas a tensão era diferente agora. Não era medo. Era antecipação.
Depois de alguns segundos, voltou a encará-lo.
- E se eu aceitar… e depois mudar de ideia?
Dante inclinou levemente a cabeça, como se considerasse a pergunta com mais seriedade do que demonstrava. A expressão dele não mudou, mas algo nos olhos - uma sombra rápida - sugeriu que a pergunta o atingiu em algum lugar mais fundo.
- Seja qual for o motivo… eu jamais machucaria você.
Lorena sustentou o olhar.
E, pela primeira vez, não encontrou ameaça ali.
Nem controle.
Nem o peso de expectativas disfarçadas de generosidade.
Só… algo que ela ainda não sabia nomear.
Ela respirou fundo, olhando ao redor por um instante. O terminal vazio, as luzes frias, a quietude irreal de um lugar feito para partidas e chegadas.
Pensando.
Se fosse embora… viveria fugindo.
E ela não tinha feito nada de errado para isso.
Não merecia passar o resto da vida olhando por cima do ombro, esperando que Rafael surgisse na próxima esquina.
Se ficasse…
Não confiava totalmente no homem que estava em sua frente.
Mas ele estava oferecendo algo que ninguém tinha oferecido antes:
Escolha.
- Quanto? - perguntou de repente.
Dante piscou, pego de surpresa.
- Como?
- O trabalho - ela continuou, agora mais firme, os ombros mais retos. - Quanto você paga?
Por um segundo, ele ficou em silêncio.
Os olhos dele percorreram o rosto dela, como se estivesse vendo algo que não via antes. Algo diferente. Algo mais forte.
E então… sorriu.
De verdade dessa vez.
Não o sorriso calculado, não a provocação, não a máscara. Algo mais próximo do que ele guardava para si mesmo.
Como se, finalmente, tivesse recebido uma resposta.
- O suficiente para você nunca mais depender de ninguém - respondeu, a voz mais baixa, mais próxima. - A menos que queira.
Lorena sustentou o olhar por um segundo a mais, tentando encontrar uma armadilha. Apesar do olhar de Dante parecer sincero.
- Então… onde a gente assina?

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