Rafael não lembrava da última vez que tinha piscado.
Os olhos ardiam como se tivessem sido esfregados com areia, vermelhos, fundos, as pálpebras pesadas demais para o estado de alerta que o corpo se recusava a abandonar. A luz da manhã atravessava as cortinas sem pedir licença, clara demais, crua demais, revelando cada imperfeição que a noite tentou esconder - o uísque derramado sobre a mesa, a roupa amassada no chão, o vazio da cama que ninguém ocupava.
Nada ali parecia em ordem - nem os móveis, nem o ar… e muito menos ele.
O corpo tinha desistido de acompanhar a mente. Mas a mente… a mente não parava.
Lorena.
O nome vinha em ondas, constante, irritante, impossível de ignorar.
Rafael passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer arranhar a palma, e então se levantou de forma brusca demais, como se ficar parado fosse o suficiente para enlouquecê-lo de vez.
- Encontrou? - Ele falou assim que viu Nelson cruzar as portas. A voz saiu rouca, pesada, mas afiada.
Nelson não respondeu de imediato. Encostou-se perto da janela, observando algo que claramente não estava ali. Ou talvez estivesse apenas escolhendo as palavras com cuidado - o que, naquele momento, era a única atitude inteligente.
- Não - disse, por fim.
Simples. Direto. Sem rodeios.
Rafael soltou uma risada curta, sem humor algum.
- Não?
A palavra ecoou, distorcida, como se fosse absurda demais para existir.
- Eu já fui em todos os lugares dele - continuou, andando de um lado para o outro, passos irregulares, impacientes. - Todos. Casas, escritórios, propriedades… até aquelas que ele acha que eu não sei.
Nada.
Nada.
Nada.
Cada repetição parecia apertar mais alguma coisa dentro dele.
- Ele não evaporou - murmurou, mais para si do que para Nelson. - Ele não desapareceu assim.
Nelson finalmente se moveu, cruzando os braços, postura firme - mas não desafiadora. Nunca desafiadora demais.
- Ele não fez isso sozinho.
Nelson conseguiu capturar toda a atenção de Rafael com aquela frase, em seus olhos um brilho escuro, denso, perigoso apareceu.
Rafael parou.
- Você tem razão.
A calma na voz era pior do que qualquer grito.
- Alguém ajudou.
Os olhos dele estreitaram, frios, calculistas - mas havia algo ali, por baixo, pulsando descontrolado.
- Ele tem alguém aqui, bem debaixo dos nossos narizes.
Nelson sustentou o olhar dele.
- Ou você simplesmente subestimou ele.
O ar mudou.
Instantaneamente.
Rafael deu um passo à frente.
- Cuidado.
Baixo. Controlado. Perigoso.
Mas Nelson não desviou.
- Você quer a verdade? - respondeu, seco. - Então escuta.
Outro passo.
Agora estavam perto demais.
- Isso aconteceu porque você pressionou ela até não sobrar nada.
A mandíbula de Rafael travou.
- Você tirou tudo dela. Isolou. Controlou. Prendeu dentro de casa como se isso fosse segurar alguém.
Cada palavra era colocada com precisão cirúrgica.
- Você esperava o quê?
Silêncio.
Pesado.
O tipo de silêncio que antecede algo irreversível.
Por um instante, pareceu que Rafael ia explodir.
A tensão percorreu o corpo inteiro dele, visível, quase elétrica - o punho fechando, o maxilar rígido, o olhar queimando.
Mas então…
Ele riu.
Baixo.
Lento.
Errado.
E balançou a cabeça.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia