Lorena acordou com o despertador, depois do banho relaxante na banheira ela caiu em um sono profundo e tranquilo que não tinha há vários dias.
O vestido que escolheu era simples, elegante na medida certa - um corte limpo, sem exageros, sem chamar atenção além do necessário. O tipo de roupa que ela escolheria… quando tinha a chance.
O reflexo no espelho não parecia mais estranho.
Mas também não era completamente familiar.
Ainda.
Quando chegou ao saguão, Dante já estava lá.
E não estava sozinho.
O homem ao lado dele tinha uma postura relaxada demais para alguém envolvido em negócios daquele nível - mãos nos bolsos, expressão quase divertida, como se estivesse sempre um passo fora da formalidade do ambiente.
Lorena diminuiu o ritmo por um instante.
Reconhecimento tardio.
Theo.
A memória veio fragmentada, distante - reuniões antigas, encontros rápidos, sempre ao lado de Dante… e depois, sumindo junto com ele quando foi para o exterior.
- Lorena - Dante disse, ao notá-la.
O tom não mudou.
Mas o olhar…
Ficou.
Por um segundo a mais.
- Esse é o Theo.
- Nós já nos vimos - Theo respondeu antes mesmo que Dante continuasse, abrindo um sorriso fácil. - Mas eu duvido que você lembre.
Lorena inclinou levemente a cabeça.
- Lembro… vagamente.
- Justo - ele riu baixo. - Eu também não era muito memorável naquela época.
- Ele ainda não é - Dante completou, seco. - Ele é meu sócio na Nexus Tech.
Theo virou o rosto devagar, encarando o amigo com uma falsa ofensa.
- Mais que isso, ele é o gênio dos algoritmos, eu sou a cara bonita da empresa, soube que você é a nova assistente dele, cuidado ele tem um humor horrível.
- Você está mais para humorista.
Lorena quase sorriu.
Dante fez um gesto discreto em direção à saída.
- Vamos.
O carro já os esperava.
O motorista abriu a porta dianteira, e Lorena se moveu automaticamente naquela direção.
- Lorena.
A voz de Dante veio firme.
Não alta.
Mas suficiente.
Ela parou.
Virou o rosto.
- Vem pra cá.
Um gesto sutil com a cabeça, indicando o banco traseiro.
Por um segundo, ela hesitou - não por recusa, mas por estranheza, ela uma assistente não deveria sentar ao lado do chefe.
Então assentiu.
Theo já contornava o carro, assumindo o lugar ao lado do motorista com naturalidade.
- Eu sempre acabo aqui na frente - comentou, acomodando-se. - Acho que isso diz muito sobre a nossa hierarquia.
- Diz - Dante respondeu, entrando no carro ao lado de Lorena. - Que você fala demais.
A porta se fechou.
O silêncio que seguiu não era desconfortável.
Era… funcional.
Dante já estava com o laptop aberto antes mesmo do carro começar a se mover.
- Presta atenção nisso aqui - disse, girando levemente a tela na direção dela.
Lorena se inclinou, aproximando-se sem perceber.
O conteúdo era denso, técnico - mas não inacessível.
Estrutura de projeto. Projeções. Termos.
Ele começou a explicar.
Sem pressa.
Sem simplificar demais.
Sem tratar como se ela não fosse entender.
- Hoje à noite não é só sobre investidores - continuou. - Eles são importantes… mas não são o foco principal.
Uma leve pausa enquanto passava para outro documento.
- O programador é.
Lorena acompanhava com atenção, absorvendo mais rápido do que esperava.
- O Demolidor - disse ele.
Ela ergueu o olhar por um instante.
- Esse é o nome dele?
- É o único que a gente tem - Dante respondeu. - Ele nunca se expôs. Nunca assinou nada com nome real.
- Trabalha sempre assim - Theo acrescentou do banco da frente. - Meio lenda urbana, meio problema jurídico.
Dante ignorou.
- O que importa é que ele é bom.
Simples.
Direto.
- Muito bom.
Lorena voltou os olhos para a tela.
- E o que você espera de mim?
Antes que Dante respondesse
- Na verdade, assistente Lorena - Theo se adiantou, virando levemente o corpo no banco - você só precisa ser… adorável.
O olhar de Dante foi imediato.
E sutilmente perigoso.
- Adorável? - Dante repetiu, devagar.
Theo piscou, como se não entendesse o problema.



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