Rafael não estava acostumado a não saber.
Era isso que o consumia.
Não a ausência de Lorena - embora ela estivesse lá, constante, pulsando no fundo da mente como uma dor que se recusava a desaparecer - mas o vazio de informação. A falha no controle. A quebra no padrão.
Ele estava na empresa.
Na sala de reuniões do último andar, cercado por telas, relatórios abertos, dados cruzados em tempo real. Um aparato inteiro funcionando para uma única finalidade:
encontrá-la.
- Confirma de novo - a voz saiu baixa, controlada, mas carregada de impaciência.
O assistente à sua frente engoliu em seco antes de responder. Tablet em mãos, postura rígida demais para alguém acostumado à rotina corporativa.
- Já cruzamos os dados de voo, senhor. Plano registrado sob uma das holdings do Dante. Decolagem ontem à noite… sem rota final declarada.
Rafael não se moveu.
- E?
- Conseguimos identificar o jato - continuou o assistente, mais rápido agora. - Mas ele desligou o rastreamento civil assim que saiu do espaço aéreo nacional.
Silêncio.
Pesado.
- E os aeroportos? - Rafael perguntou, ainda sem olhar diretamente para ele.
- Já acionamos todos os contatos. Internacional, regional, privado… nada registrado com o prefixo da aeronave.
Uma pausa.
- Ele limpou o rastro.
Aquilo era… quase impressionante.
Quase.
Rafael finalmente levantou o olhar.
Frio.
Afiado.
- Ninguém desaparece assim.
O assistente hesitou por um segundo.
- Senhor, usamos todos os recursos logísticos disponíveis. Transporte aéreo, portuário, conexões comerciais, até movimentações financeiras vinculadas…
Rafael se levantou devagar.
O movimento foi suficiente para fazer o outro recuar meio passo.
- Todos?
A pergunta veio baixa.
Perigosa.
- S-sim.
Rafael deu alguns passos pela sala, passando a mão pelo queixo, o pensamento correndo mais rápido do que qualquer relatório conseguiria acompanhar.
Ela tinha saído do país.
Com Dante.
No jatinho dele.
O dado era simples.
Objetivo.
Confirmado.
Mas o destino…
Desconhecido.
E aquilo era inaceitável.
Ele parou de repente, como se uma linha de raciocínio tivesse se fechado.
- Continua - disse, já virando de costas. - Quero cada rota possível. Cada escala não declarada. Cada aeroporto que aceite pouso fora de registro.
Uma pausa.
- E revisa tudo que envolve ele. Empresas, contatos, qualquer movimentação fora do padrão.
O assistente assentiu rapidamente.
- Sim, senhor.
Rafael continuou de pé diante da janela, olhando para a cidade como se ela pudesse, de alguma forma, responder. Os olhos ainda carregavam o cansaço da noite anterior, mas agora havia algo além - uma tensão contínua, quase elétrica, que parecia vibrar sob a pele.
- Como isso passou? - a voz saiu baixa, controlada demais para ser natural.
Nelson permaneceu em silêncio por um instante, avaliando.
- Ele planejou bem.
Rafael soltou uma risada curta, sem humor.
- Não me interessa o quão bem ele planejou.
Virou-se de repente, o olhar afiado.
- Eu quero saber como ninguém viu.
- Você subestimou ele - disse, direto.
Rafael o encarou por um segundo.
- Ele já estava planejando isso há muito tempo, não? Ninguém consegue uma fuga dessas de um minuto para o outro.
Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
Uma vez.
Duas.
Como se estivesse reorganizando a própria mente.
- Você acha que ele ter ido atrás da Lorena foi só pra te provocar… ou tem algo mais nisso? - Nelson perguntou, agora mais atento.
Os olhos de Rafael se fixaram em algum ponto.
A ruptura na fachada de controle foi clara.
As mãos se fecharam em punhos.
O maxilar travou.
- Acho que ele não se lembra bem do que eu sou capaz - disse entre dentes.
A ameaça veio limpa.
Direta.
Nelson não respondeu.
Já se arrependia de ter puxado o assunto.
Rafael estava perto demais do limite - e quando cruzava essa linha, ninguém saía ileso.
E então…
o celular surgiu na mão dele.
O gesto foi automático.
Decidido.
- O que você vai fazer? - Nelson perguntou, já antecipando que não gostaria da resposta.
Rafael não olhou para ele.
Já estava discando.
- O que eu sempre faço quando alguém esquece o lugar que ocupa.
O som da ligação preencheu o ambiente.
Uma vez.
Duas.
Três.
- Alô?
A voz feminina veio do outro lado, carregada de surpresa… e um leve traço de preocupação.
Rafael mudou instantaneamente.
A postura.
A expressão.
Até o tom.
- Sogra - disse, com uma suavidade impecável. - Bom dia.
Nelson observou.
Porque aquilo… sempre impressionava.
- Rafael? Está tudo bem?
- Claro - ele respondeu, com uma leveza quase calorosa. - Só senti saudade. Faz tempo que não conversamos.
Uma pausa.
- É… faz mesmo - Laura respondeu, cautelosa.
Rafael caminhava devagar pelo ambiente enquanto falava, como se cada passo acompanhasse o raciocínio.
- Na verdade, eu estava pensando justamente nisso. Acho que a gente tem se visto pouco como família.
A palavra foi escolhida com cuidado.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia