- O que você vai fazer? - Theo perguntou de novo, agora sem humor.
Dante não respondeu de imediato.
Leu mais uma vez.
Como se as palavras pudessem mudar.
Como se houvesse outra interpretação possível.
Não havia.
Ele bloqueou o celular.
Decisão.
- Aumenta a vigilância.
Theo franziu levemente a testa.
- Em quem?
- Em todos os passos do Rafael.
A resposta veio rápida.
Sem espaço para dúvida.
Dante já se movia enquanto falava, pegando o próprio celular, digitando com precisão.
- Quero relatório em tempo real. Contatos, deslocamentos, reuniões… tudo.
Uma pausa curta.
- E não deixa ele perceber.
Theo ficou em silêncio por um segundo.
Aquilo já era… grande.
Mas Dante não tinha terminado.
- E começa a pressionar os negócios.
Theo ergueu as sobrancelhas.
- Com força total?
- Pequenos problemas - explicou Dante, sem olhar para ele. - Atrasos, ruídos, inconsistências. Nada que quebre… mas o suficiente pra ocupar ele.
Agora Theo entendeu.
Um sorriso lento surgiu.
- Você quer ele distraído.
- Eu quero ele ocupado.
Uma diferença sutil.
Mas essencial.
Dante finalmente guardou o celular.
- Se ele estiver resolvendo incêndios… não tem tempo de procurar problemas.
Theo cruzou os braços.
Pensativo.
- Você vai falar pra ela?
A pergunta ficou no ar por um instante.
Pesada.
Dante demorou um segundo a mais do que o normal.
- Não.
Simples.
Direto.
- Ela acabou de conseguir respirar.
O olhar dele endureceu levemente.
- Não vou tirar isso dela agora.
Theo assentiu devagar.
Mas não parecia completamente convencido.
- A gente continua aqui… ou muda os planos?
Dante pensou por alguns segundos.
Calculando.
Antecipando.
- Nada de mudanças bruscas.
Então ergueu o olhar.
Decidido.
- Mas vamos encurtar a viagem.
Theo soltou o ar pelo nariz.
- Eu sabia.
Uma pausa.
- Você também sabe do que ele é capaz.
Dante não respondeu.
Não precisava.
- Nossa segurança está garantida - disse por fim, mais frio. - Mas não vou dar tempo pra ele escalar isso.
Outra pausa.
Curta.
- Voltamos antes do que eu planejei.
Theo assentiu.
Agora sério.
- Certo.
O jogo tinha mudado.
E os dois sabiam.
O quarto estava silencioso quando Dante entrou.
Calmo demais para o que girava na cabeça dele.
Ele afrouxou levemente o colarinho, caminhando até a mesa, quando o celular vibrou novamente.
Uma mensagem.
Lorena.
O nome apareceu simples.
Mas o efeito…
não foi.
Ele abriu.
Perguntas diretas. Pontuais. Sobre cláusulas, ajustes, termos específicos dos contratos.
Trabalho.
Claro.
Mas ainda assim…
Dante se recostou levemente na cadeira, um sorriso bobo surgiu.
Ele respondeu sem pressa.
Explicando.
Detalhando.
E então, depois de alguns segundos, digitou mais uma linha:
Ficou mais leve.
Mais próximo.
Mais… real.
Dante acompanhava, corrigia, explicava quando necessário.
Em um momento, ela levantou o olhar.
- Isso aqui não vai pode dar problema depois?
- Pode - ele respondeu.
Ela franziu a testa.
- Então por que manter?
Ele inclinou levemente a cabeça.
- Porque, às vezes, você precisa dar a sensação de vantagem… pra controlar onde ela realmente está.
Lorena ficou em silêncio por um segundo.
Processando.
- Você manipula até quando parece justo.
Dante sustentou o olhar.
- Eu sou honesto sobre isso.
O tempo passou sem que percebessem.
Entre ajustes, observações e pequenas provocações, a distância entre eles foi diminuindo aos poucos.
Naturalmente.
Sem esforço.
- Espera… eu preciso anotar isso. Eu consigo decorar melhor quando escrevo no papel.
Lorena se inclinou levemente, apoiando o caderno sobre a mesa enquanto começava a registrar as observações de Dante com atenção concentrada.
Ele a observou por um instante antes de comentar, com um tom quase displicente:
- Você parece uma vovozinha analógica. Por que não usa o bloco de notas, como todo mundo no século vinte e um?
Ela ergueu os olhos devagar, estreitando-os com falsa indignação.
- Você é… muito preconceituoso.
Apontou a caneta na direção dele, como se fosse uma acusação formal - ou uma pequena ameaça - mas o gesto foi rápido demais. A caneta escapou entre os dedos e caiu no chão.
Os dois se abaixaram ao mesmo tempo, num reflexo automático, sem pensar.
As mãos alcançaram o objeto no mesmo instante.
E pararam.
O toque veio primeiro.
Quente.
Sólido.
Os dedos dela roçaram os dele - grandes, firmes - e um arrepio inesperado subiu pela pele, intenso demais para ser ignorado.
Lorena prendeu a respiração por um segundo.
Quando ergueu o olhar, encontrou o dele já ali.
Sem desvio.
Sem distração.
Perto demais.
Dante não se afastou.
Nem ela.
E, naquele espaço mínimo entre um segundo e outro, o resto do mundo simplesmente deixou de existir.
Do lado de fora, lá longe, o telefone de Theo vibrou com uma nova informação. Mas ali, naquele momento, nada disso importava.

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