Rafael estava impecável.
Terno escuro, postura relaxada, um sorriso perfeitamente calculado - o tipo de presença que transmitia confiança, estabilidade… segurança. Cada detalhe tinha sido pensado: a iluminação suave da sala de jantar, os arranjos florais discretos sobre a mesa, o vinho aberto para respirar antes da chegada dos convidados. Nada fora do lugar. Nada que pudesse levantar suspeitas.
A porta se abriu.
- Sejam bem-vindos.
A voz saiu calorosa, quase afetuosa.
Laura foi a primeira a entrar, olhando ao redor com admiração contida, como se ainda não estivesse totalmente acostumada à grandiosidade do lugar. Jonas veio logo atrás, mais reservado, mas igualmente atento a cada detalhe. As mãos dele estavam nos bolsos do paletó - um gesto que Rafael conhecia bem. Desconforto disfarçado de casualidade.
- Rafael… - Laura disse, sorrindo. - Sua casa é tão linda que nunca me acostumo.
- A casa é de vocês também - ele respondeu com naturalidade, aproximando-se para cumprimentá-los. - Fico feliz que tenham vindo.
O toque foi firme, respeitoso, convincente. Jonas assentiu, apertando a mão dele com um leve aceno de cabeça.
- Faz tempo mesmo.
- Tempo demais - Rafael concordou, conduzindo-os para dentro. - Precisamos corrigir isso.
Nada na cena destoava, nada parecia fora do lugar. Funcionários discretos se moviam ao fundo, preparando a mesa, ajustando detalhes, garantindo que tudo estivesse perfeito. E estava. A mesa de jantar já estava posta, farta e elegante, exatamente o tipo de recepção que faria qualquer um se sentir valorizado.
- Por favor - Rafael indicou as cadeiras - fiquem à vontade.
Laura sentou-se primeiro, visivelmente tocada pelo cuidado. Seus olhos percorreram a mesa, os arranjos, a louça fina. Jonas a acompanhou, ainda em silêncio, mas mais relaxado agora.
- Lorena quando volta? - ela perguntou, olhando ao redor.
O sorriso de Rafael não mudou, mas os olhos endureceram por um segundo. A pergunta era esperada. A resposta, ensaiada.
- Esse novo trabalho dela é um pouco exigente demais - respondeu, servindo vinho com movimentos precisos. O líquido escuro escorreu em um fio contínuo, perfeito. - Ela precisou adiar a volta, mas vocês vão ser meus convidados até que ela volte.
A mentira saiu com naturalidade. Até os funcionários que circulavam ao fundo, habituados às máscaras do patrão, talvez acreditassem.
Enquanto falava, o celular já estava na mão. Discreto. Quase invisível. A câmera foi posicionada com naturalidade, como se fosse apenas um registro casual daquele momento: Laura sorrindo, Jonas ajeitando os talheres, a mesa impecável diante deles. Uma imagem perfeita, familiar, aconchegante. Um lar.
Rafael gravou por alguns segundos. O suficiente. O enquadramento pegou cada detalhe que importava: a expressão tranquila dos pais de Lorena, o ambiente acolhedor, a sensação de que tudo estava bem.
Desligou.
Digitou rapidamente para um número novo - recente, obtido sem dificuldade. A mensagem foi curta, direta, sem explicação, sem contexto: apenas o vídeo e uma única palavra.
“Volte.”
Ele enviou sem hesitar, sem olhar duas vezes, e guardou o celular como se nada tivesse acontecido. A tela escureceu. O sorriso voltou ao lugar.
- Espero que estejam com fome - disse, retomando o papel com perfeição. - A cozinheira preparou algo especial.
Laura riu, mais à vontade agora. Jonas aceitou o vinho, relaxando os ombros.
- O senhor Jonas - Rafael continuou, servindo-se também - eu estava pensando naquela reforma do sítio. Se ainda precisar de ajuda…
- Ah, não precisa se preocupar com isso - Jonas respondeu, mas havia um brilho de interesse nos olhos.
- Eu insisto. É o mínimo que posso fazer.
A conversa seguiu, fluindo naturalmente. Rafael conduzia cada tema com precisão cirúrgica: a reforma do sítio, a viagem que Laura queria fazer, os planos para o futuro. Promessas generosas, disfarçadas de carinho. Nada era pedido em troca. Nada era cobrado.
Pelo menos não ainda.
Do lado de fora, a noite caía sobre a mansão. Os jardins iluminados, os carros estacionados, os seguranças discretamente posicionados. Tudo no lugar. Tudo sob controle.
Lá dentro, Laura ria de uma lembrança antiga. Jonas ria também. Rafael os observava com a paciência de quem já sabe o final da história.
***
Lorena acordou antes do despertador.
Os olhos se abriram devagar, ainda presos entre o sono e algo mais difícil de nomear. A luz do amanhecer entrava pelas frestas da cortina, mas ela não se moveu. Ficou ali, imóvel, tentando se convencer de que a sensação estranha que a acordou era apenas cansaço.
A mesma mesa onde ela tinha aprendido a sorrir quando não queria, a concordar quando não devia, a se calar quando precisava falar. A mesma sala onde aprendeu a desaparecer.
Laura sorria. Jonas parecia mais à vontade do que ela já tinha visto em muito tempo. A mesa estava cheia - comida, vinho, tudo perfeito.
Tudo… errado.
O celular tremeu nas mãos dela.
Lorena não percebeu quando prendeu a respiração, nem quando se levantou da cama. Os olhos estavam fixos na tela, nos detalhes que ninguém mais veria: a tensão nos ombros do pai, a forma como a mãe segurava o copo com cuidado demais, a postura relaxada de Rafael, o dono da casa, do momento, da armadilha.
O vídeo terminou.
O silêncio que ficou era pesado demais.
Ela permaneceu parada, o celular ainda na mão, o olhar fixo na tela como se aquilo pudesse mudar se encarasse por tempo suficiente. Não mudou.
Então veio a mensagem, logo abaixo do vídeo.
Uma única palavra.
Volte.
O coração disparou, forte e irregular. Não era um pedido, nem um convite. Era uma ordem. Uma ameaça. E o pior… ela entendia exatamente o que aquilo significava.
Os dedos apertaram o celular com mais força. O ar parecia pesado demais para puxar, o quarto parecia pequeno demais para conter tudo que se movia dentro dela.
Porque, pela primeira vez desde que tinha ido embora, Rafael não estava mais distante.
Ele tinha encontrado uma forma de alcançá-la.
E, dessa vez… ele não precisava saber onde ela estava.
Porque sabia exatamente onde machucar.

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