Lorena não pensou.
Agir veio antes.
O celular ainda estava na mão quando ela saiu do quarto, os passos rápidos demais para qualquer tentativa de calma. O corredor do hotel se estendia à frente, interminável, as luzes suaves criando sombras que pareciam dançar na periferia da visão.
Ela já abria o aplicativo de passagens enquanto caminhava, os dedos tremendo levemente ao digitar. O primeiro voo. Qualquer voo. Não importava o destino intermediário, não importava a conexão, não importava o preço.
Ela precisava voltar.
Agora.
O corredor parecia longo demais, silencioso demais, como se o tempo tivesse desacelerado só para piorar a sensação de urgência que crescia dentro dela a cada passo. A respiração vinha curta, o coração batia irregular, e as imagens do vídeo se repetiam em loop na mente: os pais à mesa, o sorriso da mãe, a mão do pai sobre o talher, Rafael servindo vinho como se fosse o anfitrião perfeito.
Como se nada estivesse errado.
Quando parou diante da porta de Dante, não hesitou.
Bateu.
Uma vez.
Duas.
Mais forte do que pretendia.
O som ecoou no corredor vazio, e por um segundo - apenas um - ela pensou em bater de novo. Mas então a porta se abriu.
Dante apareceu ainda sonolento, o cabelo completamente desalinhado, a expressão carregando o resquício do descanso interrompido. Estava sem camisa, vestindo apenas a calça do pijama, e por um segundo - um único segundo - o olhar de Lorena falhou.
O peito definido, os ombros largos. A presença dele ali, tão próxima, tão real…
Ela corou antes mesmo de perceber.
O calor subiu pelo pescoço, pelas bochechas, e ela desviou o olhar bruscamente, irritada consigo mesma por permitir aquela distração.
Não havia espaço para aquilo.
Não agora.
- Eu preciso ir embora - disse, rápido demais, as palavras atropelando o próprio ritmo.
Dante ainda estava processando, os olhos ainda pesados de sono, mas já havia algo diferente na postura dele. Algo que acordava antes da consciência.
Ele abriu mais a porta.
- Entra.
A voz saiu mais grave, ainda baixa, enquanto ele se afastava para que ela passasse.
Lorena entrou sem discutir, os passos agora cruzando o quarto dele, andando de um lado para o outro, o celular ainda na mão como se fosse uma extensão do próprio corpo.
- Eu já estou vendo passagem, o primeiro voo disponível.
- Lorena.
Ela não parou.
- Vou direto para lá, resolver isso. Se eu pegar o voo das oito…
- Lorena.
Dante passou a mão pelo rosto, despertando de vez. Pegou uma camisa no caminho, vestindo-a enquanto escutava. Os movimentos eram precisos, econômicos, mas havia uma tensão crescente nos ombros.
Ela continuou:
- …consigo chegar antes do meio-dia. Eu só preciso falar com ele, explicar que…
- Explicar o quê?
A voz dele não era alta. Mas era suficiente.
Lorena parou.
Virou-se.
Dante a encarava com uma intensidade que não deixava espaço para fugas.
- Que ele não pode fazer isso? - continuou ele. - Que não pode usar seus pais como moeda de troca?
Ela abriu a boca. Nada saiu.
- Você acha que ele não sabe?
Foi o conteúdo - não o tom - que mudou tudo.
Dante deu um passo à frente.
- Ele sabe, Lorena. Ele sabe exatamente o que está fazendo.
Ela desviou o olhar, os dedos apertando o celular com mais força.
- Eu não posso deixar eles lá.
A frase saiu baixa, quase um sussurro.
- Não vou.
Dante a observou por um segundo. Depois, sem dizer nada, pegou o próprio celular e discou um número com rapidez.
- Prepara o jatinho - disse, direto. - Decolagem em duas horas.
Uma pausa.
- Estamos voltando.
Desligou antes de qualquer resposta mais longa.
Lorena piscou.
- Você não precisa voltar comigo.
A frase saiu automática. Defensiva.
- Você tem compromissos, investidores, o projeto… eu consigo dar um jeito. Eu só preciso voltar, falar com ele, resolver isso…
- Resolver?
Dante a encarou.
De verdade.
- Você acha mesmo que isso se resolve com uma conversa?
Ela hesitou.
Só um segundo.
- Ele não faria mal aos meus pais - insistiu, mas já havia menos certeza na própria voz. - Ele é… ele não pode estar maluco, não nesse nível.
As palavras soaram mais como um pedido do que uma afirmação. Como se ela estivesse tentando se convencer de que o homem que amou ainda existia em algum lugar dentro daquele monstro.
Dante deu um passo à frente.
- Você ainda está tentando entender ele com lógica.
Outra pausa.
- Esse é o erro.
Lorena desviou o olhar por um instante, o peso da situação finalmente alcançando tudo de uma vez. As imagens do vídeo voltaram: a mãe sorrindo, o pai relaxado, Rafael servindo vinho como se fosse o anfitrião perfeito.
Quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa.
- Eu não quero te arrastar pra isso.
Ela respirou fundo, sentindo o peito apertar.
- Você já fez demais por mim. Eu… eu vou dar um jeito.
Antes que pudesse se afastar, Dante segurou as mãos dela.
O toque foi gentil, mas firme, passando uma segurança que ela ansiava em sentir. As mãos dela estavam frias e trêmulas; as dele, quentes e firmes.
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ele Teve um Filho com Outra - Casei com o CEO que Ele Odeia