O hospital parecia estar em um mundo paralelo. O tempo não passava.
Ou talvez fosse apenas a mente de Dante, incapaz de registrar qualquer coisa que não fosse a porta fechada da enfermaria.
Ele não parava.
Andava de um lado para o outro no corredor, passos rápidos, irregulares, a mão passando pelo cabelo repetidas vezes enquanto tentava manter algum controle sobre si mesmo, sem sucesso. A calma que sempre o definia - a máscara que ele usava no trabalho, nas negociações, na vida - tinha se dissolvido completamente.
A imagem de Lorena machucada… o deixou completamente fora de eixo.
- Theo, eu não quero "um bom médico" - disse, a voz baixa, mas tensa, o celular pressionado contra o ouvido. - Eu quero o melhor ortopedista desse país. Agora.
Do outro lado, Theo soltou um suspiro contido. Conhecia Dante há tempo suficiente para saber quando não discutir.
- Já estou vendo isso. Relaxa, vai ficar tudo bem com ela.
- Eu não posso relaxar - a resposta veio imediata, mais alta do que pretendia. - Não até que ela esteja completamente bem.
Theo ficou em silêncio por um segundo antes de mudar de assunto. A estratégia de sempre: dar a Dante algo para pensar que não fosse a culpa.
- Dessa vez o Rafael surtou de vez.
Dante não respondeu. Mas o maxilar travou com tanta força que os dentes rangeram.
- O plano com os fornecedores já começou a surtir efeito - Theo continuou. - Cancelamentos em cadeia. Ele vai ter que apagar incêndio por um bom tempo.
Dante parou de andar.
Por um instante.
Os olhos fixos em um ponto qualquer, como se estivesse enxergando algo que só ele podia ver.
- Ótimo.
A palavra saiu fria. Calculada.
- Com ele… eu acerto as contas com cuidado.
Theo conhecia aquele tom. Era o mesmo que Dante usava antes de tomar decisões irreversíveis. E não gostava dele. Mas não comentou.
- Te aviso assim que tiver o médico - disse apenas.
Dante desligou.
E voltou a andar.
Mais dois passos.
Três.
Até que… a porta da enfermaria se abriu.
Ele já estava em movimento antes mesmo de pensar.
Entrou.
Quase abrupto.
E então parou.
Lorena estava na maca. O braço imobilizado, já alinhado, enfaixado com cuidado. Havia sinais claros do procedimento recente - a marca do gesso, a tipóia que sustentava o peso, os curativos frescos - mas o pior… tinha passado.
Ela estava consciente.
Os olhos abertos, fixos nele.
E aquilo, sozinho, já foi o suficiente para algo dentro dele ceder.
Um pouco.
- Lorena…
A voz saiu diferente.
Mais baixa.
Mais… humana.
Ele se aproximou rápido, mas desacelerou nos últimos passos, como se tivesse medo de chegar perto demais, como se a proximidade pudesse machucá-la ainda mais.
- Você está bem? Está com dor? Quer água? Alguma coisa pra comer? Está frio aqui? Posso pedir pra ajustarem a temperatura…
As palavras vinham uma atrás da outra, sem pausa, sem filtro.
Desorganizadas.
Quase desesperadas.
A mão dele passou pelos cabelos desgrenhados, um gesto tão fora do controle habitual que parecia pertencer a outra pessoa.
Lorena piscou, surpresa.
Se não estivesse sentindo dor, talvez até sorrisse.
Porque aquele não era o Dante que o mundo via.
Nem de longe.
O Dante que o mundo conhecia era frio, calculista, inabalável. O gênio da tecnologia que construiu um império sozinho. O homem que não piscava diante de ameaças, que não se curvava, que não demonstrava fraqueza.
Aquele homem não estava ali.
Ali, naquela enfermaria, havia outro.
- Dante… - murmurou, a voz ainda um pouco fraca pelos medicamentos. - Eu estou bem.
Ele parou.
Mas só porque ela falou.
Os olhos ainda a analisavam, como se procurassem qualquer sinal contrário, qualquer mentira que ela pudesse estar contando para não preocupá-lo.
- Seu braço… como está…?
- Já colocaram no lugar.
Ela respirou devagar, sentindo o peso do gesso, o latejar ainda presente, mas mais distante.
- Dói… mas está melhor.
Os remédios começavam a fazer efeito, deixando tudo um pouco mais distante, mais suportável. As bordas do mundo se suavizavam, as cores se tornavam mais macias.
Mas havia algo que não se anestesiava.
- Meus pais…
A preocupação veio imediata.
Mais forte que qualquer dor física.
- Eles estão bem?
Dante não hesitou.
- Estão.
Simples.
Direto.
Mas, dessa vez, havia algo mais no tom. Uma certeza que não precisava ser dita em voz alta.
- Rafael colocou eles em um cruzeiro - continuou, aproximando-se mais um pouco, como se a proximidade pudesse transmitir segurança. - Eu interceptei.
Lorena franziu levemente a testa, tentando acompanhar. As palavras se embaralhavam um pouco, os medicamentos deixando tudo mais lento.
- Interceptou…?
- Fiz parecer uma troca normal de embarcação - explicou, puxando a cadeira para mais perto. - Nada que levantasse suspeita. Eles acreditam que foi só um ajuste de percurso.
Uma pausa.
Os olhos dele encontraram os dela.
- Eles já estão em casa.
O ar pareceu voltar para os pulmões dela de uma vez.
O peso que ela nem sabia que ainda carregava se dissolveu, deixando espaço apenas para o alívio. E para a compreensão.
- Eles… não sabem de nada? - Lorena não queria preocupá-los. Não depois de tudo. Não queria que vissem o que ela se tornou
- Não.
Ele sustentou o olhar dela.
Incontestável.
- Então, agora… eu te devo a vida.
Lorena abriu a boca para contestar.
- Dante, você só se meteu nisso por minha causa. Foi você quem…
- Não.
Ele interrompeu.
Calmo.
Mas definitivo.
- Na minha vida… ninguém nunca se colocou na frente pra impedir que eu me machucasse.
A verdade ali era mais profunda do que ela podia entender. Mais antiga. Mais dolorosa.
E não foi a primeira vez. A memória que ele guardava desde os dezenove anos, aquela noite no rio, a garota que entrou na água gelada sem hesitar - essa garota estava ali, na sua frente, com o braço quebrado por causa dele.
- A partir de agora - continuou - você é minha salvadora.
Uma pausa curta.
- E não adianta negar.
Lorena ficou em silêncio.
Observando.
Algo no olhar dele… não combinava só com o que tinha acabado de acontecer. Era mais antigo. Mais profundo. Como se ele estivesse vendo algo que ela não conseguia lembrar.
Mas ela não pressionou.
Talvez porque estivesse cansada demais.
Ou talvez porque… não fosse o momento.
Dante continuou ao lado dela.
Mais calmo agora.
Mas ainda atento.
Sempre atento.
- Quer água?
Ela hesitou por um segundo.
E assentiu.
Ele pegou o copo imediatamente, ajustando o canudo com cuidado antes de aproximar. Sem impor. Sem decidir por ela. Apenas oferecendo.
E aquilo… era tão diferente.
Rafael cuidava. Sempre cuidou. Mas era um cuidado que sufocava, que decidia, que impunha. Se ele achava que ela precisava comer, mesmo que estivesse com o estômago embrulhado, ela comia. Se achava que estava frio, ajustava a temperatura. Se achava qualquer coisa… ele decidia e ela obedecia.
Não havia escolha.
Apenas obediência.
Agora…
não.
Dante estava ao lado dela.
Esperando.
Oferecendo.
Permitindo.
E, de uma forma que ela não sabia explicar… aquilo era reconfortante.
Mais do que deveria ser.
Muito mais.

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