A sala de reuniões estava cheia.
Não lotada, lotada seria comum para convocações ordinárias. Mas aquela não era ordinária. Os acionistas que ali estavam não tinham sido chamados para discutir resultados, projeções ou novos negócios. Eles tinham vindo para cobrar.
E sabiam disso.
Rafael entrou por último.
O silêncio que acompanhou sua chegada foi diferente do habitual. Antes, era respeito. Agora, era avaliação. Os olhos percorreram o rosto dele sem disfarce - o hematoma escuro sob o olho direito, o corte no lábio ainda vermelho, o inchaço no maxilar que nenhum paletó bem cortado conseguia esconder.
Ele sentiu cada olhar.
Mas não demonstrou.
Sentou-se à cabeceira da mesa com a mesma postura de sempre, ereto, controlado. A cadeira rangeu levemente sob o peso, e o som pareceu ecoar mais do que deveria naquele silêncio tenso.
- Vamos começar - disse, a voz neutra.
Ninguém se moveu por um segundo. Então, um dos homens mais velhos à mesa, um veterano que já estava na empresa antes mesmo de Rafael nascer, apoiou os cotovelos na madeira escura.
- Os fornecedores, Rafael.
O nome veio sem o "senhor" de costume. Sem o título. Sem o respeito fabricado.
- Queremos uma explicação.
Rafael não respondeu de imediato. Os olhos percorreram a mesa lentamente, medindo cada expressão, cada hesitação, cada aliança que já começava a se desfazer.
- Estamos resolvendo - disse por fim.
- Resolvendo? - outro acionista interveio, mais jovem, mais impaciente. - Três contratos cancelados em menos de quarenta e oito horas. Parceiros históricos. Gente que trabalha conosco há décadas.
Ele abriu uma pasta sobre a mesa, os papéis espalhando-se como provas.
- Todos falando a mesma coisa. "Reestruturação interna." "Mudança de diretrizes." Desculpas ensaiadas. O que está acontecendo?
Rafael sustentou o olhar.
- Problemas operacionais. Já estamos acionando times de contingência.
- Problemas operacionais? - O veterano riu, sem humor. - Isso não é problema operacional. Isso é ataque.
O termo caiu na mesa como uma bomba.
Os olhos se entreolharam. Murmúrios começaram a surgir, baixos, inquietos. Rafael sentiu o chão se mover sob os pés - não literalmente, mas próximo disso. A certeza que sempre sustentou sua autoridade começava a rachar.
- Alguém está mirando em nós - o veterano continuou, agora apontando um dedo enrugado na direção de Rafael. - E, pelo jeito, você sabe muito bem quem é.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais denso. Mais pesado.
Rafael não negou. Não confirmou. Apenas ficou ali, imóvel, os dedos entrelaçados sobre a mesa.
- Vamos resolver - repetiu.
Mas, dessa vez, não houve quem acreditasse.
O veterano voltou a tomar a palavra.
Apoiou as mãos na mesa, os dedos nodosos pressionando a madeira escura com uma lentidão que parecia calculada. Não era um homem que falava sem pensar. Não era um homem que fazia ameaças vazias.
- Rafael - disse, a voz baixa, mas carregada de um peso que os anos de poder conferiam. - Eu vou ser claro.
Rafael sustentou o olhar.
- Você tem trinta dias.
O ar pareceu ficar mais denso.
- Trinta dias - repetiu o veterano - para estancar esse sangramento. Para recolocar os fornecedores no lugar. Para mostrar que ainda tem controle sobre o que seu avô construiu.
Ele se endireitou, lentamente, como quem já sabe o final da história.
- Se não conseguir… nós vamos votar.
O silêncio que se seguiu foi cortante.
- Votar o quê? - Rafael perguntou, embora já soubesse a resposta.
- A sua substituição.
A palavra caiu na sala como uma sentença.
- Trinta dias - repetiu o veterano. Nem mais um. Depois disso, você não vai mais conseguir segurar os outros. E eu não vou segurar por você.
Rafael não respondeu.
O veterano o observou por um segundo, como se esperasse algum sinal de reação - um movimento brusco, uma palavra impensada, qualquer coisa que confirmasse o que os outros já murmuravam nos corredores.
Mas Rafael não se moveu.
Não piscou.
Apenas ficou ali, imóvel, os dedos entrelaçados sobre a mesa, a expressão fechada como uma fortaleza sitiada.
- Trinta dias - repetiu, por fim. A voz saiu baixa, mas firme. - Está claro.
O veterano assentiu lentamente. Não havia satisfação em seu gesto. Apenas a constatação de que um ciclo, talvez, estivesse prestes a se encerrar.
- Que assim seja.
Os acionistas saíram em grupos, cochichando, os olhares ainda fixos nele. Rafael ficou sozinho.
A porta se fechou com um clique suave, e o silêncio que ficou foi diferente de todos os outros. Não era o silêncio da espera. Era o silêncio de quem já sente o chão rachando sob os pés.



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