Lorena saiu do hospital diretamente para um apartamento que Dante fez questão de que ela usasse.
O edifício parecia simples por fora mas não era um lugar comum. Para entrar, era preciso passar por três pontos de verificação, cada um mais discreto que o anterior - câmeras embutidas nas paredes, sensores que ninguém via, seguranças que pareciam fazer parte da decoração até que se movessem.
Lorena já estava se acostumando.
Na primeira noite, estranhou. O silêncio, a altura, a sensação de estar cercada por vidro e concreto. Mas, aos poucos, aquilo deixou de ser um espaço vigiado para se tornar… seguro.
Pela primeira vez em muito tempo, ela dormia sem medo.
O despertador tocou cedo, como sempre. Lorena se sentou na cama com cuidado, ainda sentindo o peso do braço imobilizado, o gesso que já começava a ficar familiar. Levantou-se, escovou os dentes com a mão esquerda, um exercício de paciência que repetia todas as manhãs.
No horário habitual, o motorista já estava à espera.
O trajeto até o escritório era rápido. Curto o suficiente para que Lorena pudesse revisar mentalmente a agenda do dia.
O andar da Nexus Tech já estava em movimento quando ela chegou. As luzes acesas, as telas brilhando, os funcionários circulando com a eficiência silenciosa que caracterizava o lugar. Lorena cumprimentou algumas pessoas no corredor - poucas, porque seu escritório ficava no fundo, perto da sala de Dante - e se instalou na própria mesa.
O braço doía. Não o tempo todo, mas nos momentos de distração, quando ela esquecia de proteger o movimento.
O trabalho ajudava.
Desde que voltara, tinha se dedicado aos projetos com uma intensidade que surpreendia até a si mesma. Talvez fosse a necessidade de ocupar a mente. Talvez fosse o medo de parar e sentir o que ainda doía em outros lugares.
O fato era que, toda manhã, ela estava ali.
E, toda manhã, enfrentava o mesmo desafio: o computador.
Os dedos da mão direita ainda se moviam com alguma dificuldade, e o gesso impedia qualquer tentativa de digitar por muito tempo. Mas Lorena havia encontrado um jeito.
O gravador ficava sempre ao lado do teclado.
Ela ligava antes de cada reunião, posicionava com cuidado para captar todas as vozes, e depois passava os arquivos para um programa de transcrição. O software era bom - assustadoramente bom - e as anotações saíam limpas, organizadas, prontas para revisão.
Ela mesma se encarregava de conferir, linha por linha, ajustando o que a máquina não conseguia captar. Não era o mesmo que escrever à mão. Mas funcionava.
O trabalho avançava.
E, com ele, algo dentro dela começava a se reorganizar.
***
O almoço chegou sem que Lorena percebesse o tempo passar.
Ela estava revisando os últimos documentos quando uma sombra cobriu a mesa.
- Não comeu ainda.
Não era pergunta.
Dante estava ali, uma marmita na mão, a expressão como sempre - controlada, atenta, mas com algo nos olhos que ela já aprendera a reconhecer.
- Eu ia descer daqui a pouco - respondeu, fechando o laptop.
Ele não comentou.
Apenas colocou a marmita sobre a mesa, afastando alguns papéis para abrir espaço.
Lorena olhou para a comida.
E reconheceu.
O risoto de cogumelos com um toque de açafrão. Não era algo que ela comia com frequência. Não era algo que estivesse no cardápio do refeitório.
Ela levantou os olhos.
- Como você sabe o que eu gosto?


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