No escritório, Rafael permanecia à espera.
Desde o vazamento na Nexus Tech, ele aguardava. A essa altura, Lorena já devia ter sido ameaçada e expulsa da empresa. A qualquer momento, a polícia bateria na porta dela, e ele estaria lá, com sua equipe de advogados, pronto para resgatá-la, para mostrar-lhe que o único lugar seguro era ao lado dele. Depois que estivesse de volta em casa, teriam todo o tempo do mundo para que Lorena explicasse a relação com Dante. Ele seria paciente. Como sempre foi.
Dante. Só aquele nome já causava náuseas em Rafael. O vazamento foi apenas o início. Ele arruinaria aquela empressinha até não sobrar nada. Até que Dante soubesse o que era perder tudo.
Bom, pelo menos uma questão estava resolvida. Depois da traição de Lorena, ela não tinha mais moral para questionar nada. O filho? Agora não era só algo que ela teria que aceitar. Ela ia agradecer a ele por tê-la aceitado de volta.
Quanto mais pensava em Dante perto da sua mulher, mais a raiva crescia. Nos últimos dias, não tinha dormido nem duas horas por noite. E só conseguia fechar os olhos depois de terminar uma ou duas garrafas.
Mas breve tudo isso acabaria. Pelo menos era o que Rafael esperava.
A notícia chegou pelo telefone.
Nelson estava em pé diante da mesa, o celular ainda na mão, a expressão de quem acabara de receber um tiro. Rafael levantou os olhos do relatório que fingia ler.
- Fala.
Nelson hesitou. E hesitação, naquele momento, era a pior resposta possível.
- A Lorena… - começou, a voz mais baixa do que o habitual.
- Fala logo - Rafael esmurrou a mesa, os olhos incendiados. - O bastardo ousou machucá-la?
Nelson não piscou.
- Vai se casar com Dante.
A frase caiu no ar como uma bomba de efeito retardado. Por um segundo, Rafael ficou imóvel. Apenas olhando para Nelson, como se as palavras ainda não tivessem atravessado a camada de negação que sua mente construía automaticamente.
- O quê? - a palavra saiu baixa, quase inaudível.
Nelson não repetiu. Não precisava.
Rafael se levantou devagar. Os movimentos eram controlados, precisos - o tipo de calma que antecede não uma explosão, mas um desmoronamento.
- Ela vai se casar com ele? - repetiu, como se estivesse experimentando as palavras. - Minha esposa… vai se casar com aquele bastardo?
- O divórcio saiu por liminar - Nelson acrescentou, com cuidado. - Eles podem registrar a qualquer hora.
A mesa rangeu sob os dedos de Rafael. Não era um movimento brusco. Era a pressão crescendo, os músculos se contraindo, a força sendo contida por uma última camada de controle que já começava a se romper.
- Ela estava me enganando - disse, a voz diferente agora. Mais baixa. Mais perigosa. - Todo esse tempo… ela estava com ele.
- Rafael…
- Não me diga que não! - o grito veio, explodindo antes que Nelson pudesse terminar. Rafael avançou, a mão varrendo os papéis sobre a mesa, os relatórios voando, o telefone estilhaçando no chão. - Ela fingiu que estava fugindo, fingiu estar chateada comigo, fingiu que ele a salvou… enquanto já estava nos braços dele!
Nelson recuou um passo. Não por medo, por instinto de sobrevivência. Conhecia Rafael o suficiente para saber quando a fúria já não tinha mais alvo.
- Era isso que ela queria - Rafael continuou, andando de um lado para o outro, os passos irregulares, as mãos passando pelo cabelo de forma desordenada. - Me provocar. Me fazer de idiota. E o tempo todo… o tempo todo…
Ele parou de repente.
- Eu fiz tudo por ela. TUDO. Dei o melhor que podia dar. E ela me troca por aquele bastardo?
Nelson não respondeu. Não havia resposta que pudesse acalmar aquilo. Seu único pensamento era como é que a gente chegou nessa novela mexicana? O casamento perfeito acaba com o marido engravidando a cunhada e a esposa casando com o primo do ex.
Rafael riu. Um riso baixo, descontrolado, que não combinava com nada ali.
- Sabe o que é pior? - disse, virando-se para Nelson. - Eu ainda quero ela de volta.
A honestidade daquela frase foi mais brutal do que qualquer grito. Nelson o observou por um segundo, tentando encontrar ali algum vestígio do amigo que conhecia. Não encontrou.
- Rafael…
- Ela vai voltar - Rafael interrompeu, a voz mudando de novo, a certeza doentia se instalando. - Não importa quanto tempo leve. Ela vai voltar.
A porta se abriu.
Ninguém bateu. Ninguém anunciou. Apenas se abriu, devagar, e Nina surgiu no vão.



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