Clara saiu do escritório de Dante com o sorriso ainda no rosto, o frasco de remédios esquecido na mão, os passos mais leves do que quando entrou. No corredor, a secretária levantou os olhos, aliviada.
- Ele tomou?
- Sim, pode deixar comigo mais tarde, levo para ele tomar outra dose.
Clara seguiu em frente, os saltos batendo no piso de mármore com um ritmo que não disfarçava a satisfação. Quando chegou à própria mesa, fechou a porta do escritório e ficou ali por um segundo, encostada na madeira, os olhos semicerrados.
Falso.
O casamento era falso.
Ela deixou o frasco cair na mesa, puxou a cadeira e sentou-se diante do laptop, os dedos já ágeis sobre o teclado. A tela acendeu. O e-mail que enviara para o contato da imprensa ainda aguardava resposta na caixa de saída.
Ela o deletou.
Não precisava mais.
Agora a situação era outra. Se o casamento era falso, não havia pressa. Não havia competição real. Lorena era só uma peça no jogo de Dante, uma peça que, mais cedo ou mais tarde, seria descartada.
Clara abriu o arquivo do novo algoritmo, os olhos percorrendo as linhas de código sem realmente ver. A mente estava em outro lugar.
Como fazer Dante notar?
Ele não era um homem que se impressionava com aparência - ela já tinha testado isso no jantar. Não respondia a provocações. Não se deixava levar por conversas que não fossem sobre trabalho.
Mas ela tinha uma vantagem que Lorena não tinha: sabia do que Dante precisava para a empresa. Entendia os projetos. Falava a língua dele.
E, agora, sabia que a única barreira entre eles era uma mentira.
Clara sorriu, recostando-se na cadeira.
Ela podia esperar.
Mas, no fundo, algo a incomodava. Não era a primeira vez que via Dante olhar para Lorena. No corredor, na sala de reuniões, até mesmo quando Lorena não estava olhando, o olhar dele sempre a seguia.
Clara franziu a testa.
Talvez não seja tão falso assim, pensou.
O sorriso hesitou por um segundo.
Mas ela não era uma mulher que desistia fácil. Não ia perder tempo. Ia se aproximar. Ia mostrar que era indispensável. E, quando o momento certo chegasse, a peça falsa seria substituída pela verdadeira.
A porta se abriu. Uma das assistentes entrou com uma pilha de documentos.
- Clara, você pediu esses relatórios…
- Deixa ali.
A assistente obedeceu, mas antes de sair, hesitou.
- Você ficou sabendo do casamento? A assistente do Dante vai se casar com ele.
Clara ergueu os olhos devagar.
- Fiquei.
- Eu não entendo - a assistente continuou, sem perceber o tom. - Ela nem é tão bonita assim. E ainda é cheia de problemas…
- Cada um tem seus motivos - Clara interrompeu, a voz doce, mas definitiva. - E eu não sou paga para entender a vida pessoal do chefe.
A assistente corou, pediu desculpas e saiu.
Clara voltou os olhos para a tela, os dedos tamborilando na mesa.
"Ela nem é tão bonita assim" - a frase ecoou. Não era verdade. Lorena era bonita. De um jeito discreto, quase tímido. O tipo de beleza que não se impunha, mas que se fixava na memória.
E era exatamente isso que incomodava Clara.
Porque ela sabia que Dante não era homem de se impressionar com o óbvio.

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