Os três dias que eles tiveram para preparar a festa passaram em um ritmo que Lorena não sabia nomear. Era frenético e calmo ao mesmo tempo, uma contradição que só fazia sentido dentro daquele escritório improvisado que Dante colocara à disposição dela no andar da presidência.
Lorena estava ali desde as primeiras horas da manhã, o braço ainda imobilizado, o tablet apoiado sobre a mesa, a lista de tarefas se alongando a cada minuto. Flores. Buffet. Música. Iluminação. Cada detalhe exigia uma decisão, e cada decisão parecia puxar outra atrás.
- A fornecedora das flores confirmou - disse, olhando para a tela. - Mas ela precisa saber as cores até o fim do dia.
Dante estava sentado ao lado, o laptop aberto, os olhos percorrendo os relatórios que Theo lhe enviara mais cedo. Não levantou a vista imediatamente.
- Que cores você quer?
- Eu pensei em algo mais discreto. Branco, talvez com alguns tons de verde. Nada muito chamativo.
- Então é isso.
Lorena ergueu os olhos.
- Você não quer opinar?
Dante fechou o laptop e se virou para ela. O gesto foi simples, mas havia uma intenção ali que ele não precisava explicitar.
- É o seu casamento. Pelo menos nisso, você escolhe.
A frase caiu entre eles como um objeto delicado. Lorena desviou o olhar primeiro, os dedos tamborilando na borda do tablet.
- É um casamento falso - lembrou, a voz mais baixa.
Dante não respondeu de imediato. Apenas a observou, como se esperasse algo mais.
- Mesmo assim - disse, por fim. - Vamos fazer o mais real possível.
Nos dias seguintes, Lorena descobriu que Dante não estava brincando.
Ele aparecia nos momentos mais inesperados, entre uma reunião e outra, antes de uma teleconferência, depois de desligar uma ligação que o deixara visivelmente tenso. E em cada um desses momentos, ele perguntava a mesma coisa:
- Como estão os preparativos? Posso ajudar com alguma coisa?
A primeira vez, Lorena respondeu com a lista de tarefas ainda pendentes. Na segunda, mostrou as amostras de tecido que a decoradora enviara. Na terceira, já tinha uma pasta separada só para as escolhas que ele poderia validar.
- A música - disse, enquanto ele se sentava ao lado dela. - Eu pensei em um quarteto de cordas. Algo mais clássico, mas sem ser pesado.
Dante pegou a lista que ela estendia, os olhos percorrendo os nomes.
- Você já escolheu?
- Não. Ainda não tive tempo de ouvir as amostras.
Ele fechou a pasta.
- Então vamos ouvir.
Lorena piscou, surpresa.
- Agora?
- Agora.
Ela olhou para o relógio, depois para a pilha de e-mails que ainda precisava responder.
- Dante, você tem uma reunião em…
- Eles esperam.
Simples. Direto. Como se nada mais importasse naquele momento.
Lorena abriu a boca para argumentar, mas ele já puxava o tablet da mão dela, abrindo o arquivo de áudio com a facilidade de quem sabia exatamente o que procurava.
A primeira música começou a tocar.
Era suave, melancólica. As cordas dançavam sobre a melodia com uma leveza que surpreendeu Lorena. Ela se recostou na cadeira, os olhos fechados por um instante, deixando que o som preenchesse o espaço.
Quando abriu os olhos, Dante estava olhando para ela.
Não para o tablet. Não para a tela. Para ela.
- Gostou? - perguntou.
Lorena desviou o olhar.
- É bonita.
Ele anotou algo na pasta, ao lado do nome da música.
- Próxima.
A segunda era mais alegre, mais leve. Lorena se pegou balançando os dedos sobre o braço da cadeira, seguindo o ritmo sem perceber. Dante, ao lado, fazia o mesmo - o pé batendo no chão em compasso, o canto da boca quase se movendo em um sorriso.
- Essa é melhor - disse ela.
- É a que você quer?
Lorena hesitou. Naquele breve silêncio entre uma música e outra, algo se acomodou dentro dela. Algo que ela não sabia nomear.
- É - respondeu, mais baixo. - É essa.
Dante anotou.
E, por um momento, nenhum dos dois falou nada.
No segundo dia, foi a vez das flores.
A fornecedora enviara amostras pela manhã, e Lorena passou a tarde inteira dispondo as imagens sobre a mesa, tentando visualizar o arranjo perfeito. Branco, verde, toques de azul-pálido, nada que gritasse, nada que pedisse atenção.
Dante a encontrou nessa posição quando entrou: inclinada sobre as fotos, a mão boa apoiada no queixo, a testa levemente franzida.
- Escolheu?
Ela suspirou.
- Ainda não. Todas são bonitas, mas… nenhuma parece certa.
Ele se aproximou, puxando a cadeira ao lado dela. Os olhos percorreram as imagens com a mesma atenção que dedicava aos relatórios.
- Por que não todas?
Lorena virou o rosto.
- Como assim?
- Se você gosta de todas, usa todas. Mistura. Cria algo que seja único.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
- Você realmente não se importa?
- Com o quê?
- Com o que vão pensar. Se vai ser bom o suficiente. Se…
- Lorena.
Ele a interrompeu, a voz mais baixa. Ela ergueu os olhos.
- Esse casamento - disse ele - é seu. Na verdade… nosso. Podemos escolher qualquer coisa.
As palavras encontraram um lugar que ela nem sabia que estava vulnerável.



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