A mansão de Dante amanheceu coberta por uma névoa fina que se dissipava devagar, como se a própria natureza quisesse estender aquele momento de calma antes do caos. Os funcionários circulavam pelos jardins com a eficiência silenciosa de quem já tinha feito aquilo centenas de vezes, ajustando flores, alinhando cadeiras, conferindo cada detalhe.
A casa da piscina ficava nos fundos da propriedade, separada da mansão principal por um caminho de pedras e uma pequena ponte de madeira. Era um ambiente mais reservado, com paredes de vidro que davam para a água e para o jardim. Lorena havia escolhido aquele lugar para se arrumar justamente por causa da privacidade - longe dos olhos curiosos, longe do movimento.
Ela estava sentada diante do espelho, enquanto a cabeleireira finalizava o penteado. Os cabelos presos em um coque baixo, algumas mechas soltas caindo sobre os ombros, simples, discreto, exatamente como ela queria.
O vestido azul-pálido estava pendurado no cabide ao lado, e a cada olhar que lançava para ele, algo se apertava dentro do peito.
É falso, lembrou-se.
Mas o vestido era real. As flores eram reais. O sorriso que ela não conseguia conter, mesmo diante do espelho, também parecia real.
A porta se abriu sem aviso.
- Lorena… - a voz da mãe veio hesitante, carregada de preocupação.
Laura entrou, seguida por Jonas, que fechou a porta atrás de si com um cuidado que não combinava com a rigidez dos ombros.
Lorena fez um sinal para a cabeleireira, que se retirou discretamente.
- Mãe…
- Filha, a gente precisa conversar.
Laura se sentou na espreguiçadeira ao lado dela, os olhos percorrendo o rosto de Lorena como se estivesse procurando algo, talvez a menina que um dia fora, talvez algum sinal de que tudo aquilo era um erro.
- Eu sei que você contou o que aconteceu com o Rafael - Laura hesitou, como se as palavras ainda fossem difíceis de pronunciar. - E eu entendo você. Deus sabe que eu entendo.
- Mas? - Lorena completou, já conhecendo o tom.
- Mas isso aqui… - Jonas falou, aproximando-se. - Isso aqui é rápido demais. Você nem conhece esse homem direito. Ele é primo do Rafael, faz parte da mesma família…
- Ele não é igual ao Rafael - Lorena interrompeu, a voz mais firme do que esperava.
Jonas a encarou.
- Como você pode ter tanta certeza? Em tão pouco tempo?
Lorena desviou o olhar para o vestido azul-pálido.
- Porque ele me deu escolha.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era o silêncio de quem duvida, mas o silêncio de quem começa a entender.
- Ele me deu trabalho quando ninguém mais me aceitaria - continuou. - Ele me deu um lugar para ficar quando eu não tinha para onde ir. E agora… ele está me dando a chance de recomeçar.
Laura tocou o rosto da filha com a mão trêmula.
- E o amor? - perguntou, baixo. - Você ama ele?
Lorena não respondeu de imediato, ela não podia dizer aos pais que aquele casamento era só uma farsa.
- Ele é bom para mim - disse, por fim.
- Não foi isso que eu perguntei minha filha…
Jonas suspirou, passando a mão pelo rosto.
- Eu não confio nessa família. Em nenhum deles. - Ele olhou para Lorena com uma intensidade que doía. - Mas eu confio em você. Se você diz que ele é diferente… eu vou tentar acreditar.
Lorena se levantou e abraçou o pai. O gesto foi breve, mas suficiente.
- Obrigada.
Laura enxugou os olhos com a ponta do lenço.
- Vamos lá para o jardim. Deixar você se arrumar.
Os dois saíram, e Lorena ficou ali, imóvel, os dedos ainda frios da mão da mãe.
Ela olhou para o vestido.
Depois para o relógio.
A festa começaria em uma hora.
Enquanto isso, do lado de fora, os convidados começavam a chegar.
Os carros subiam a longa entrada de terra batida que levava à mansão, alinhando-se sob as árvores centenárias que bordejavam o caminho. Homens de terno escuro, mulheres de vestido longo, sorrisos ensaiados, olhares que já avaliavam cada detalhe.
Clara desceu do carro com a elegância de quem não precisava de apresentação. O vestido era vermelho - um vermelho profundo, proposital. Chamava atenção. Marcava presença.
Ela não estava ali para passar despercebida.



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