O juiz de paz ergueu a mão, e o silêncio se espalhou pelo jardim
- Nós estamos reunidos aqui hoje para celebrar a união de Dante e Lorena - disse o juiz, a voz calma, firme. - Se alguém presente tiver objeção a este casamento, que fale agora ou mantenha-se em silêncio para sempre.
O vento balançou as flores. O sol brilhava. Ninguém falou.
Clara, na primeira fileira, mantinha o rosto impassível, mas os dedos apertavam a taça de champanhe com força. Laura enxugava os olhos com o lenço, e Jonas segurava a mão dela com a mesma força com que segurava a própria respiração.
Dante olhou para Lorena.
Os olhos dele estavam marejados, mas ele não desviava o olhar. Parecia gravá-la na memória - o vestido azul-pálido, os cabelos soltos sobre os ombros, o brilho do sol refletindo na pele.
- Dante - o juiz chamou. - Você preparou seus votos?
Dante respirou fundo.
- Preparei.
Lorena sentiu o coração disparar.
Preparou? Ela nem tinha pensado nisso.
Mas por que ele prepararia votos para uma encenação?
Dante tirou um papel dobrado do bolso do paletó. As mãos tremiam levemente, e ele precisou segurar o papel com mais força para que não caísse.
- Lorena - começou, a voz mais baixa do que o habitual. - Eu não sou bom com palavras. Você já deve ter percebido.
Alguns convidados riram baixo. Dante não pareceu notar.
- Eu passei uma vida sem encontrar um objetivo, ou um norte.
Lorena franziu a testa.
O que ele está dizendo?
- Até que uma noite… alguém me mostrou que o mundo podia ser diferente.
Lorena franziu a testa, confusa.
Uma noite?
Lorena sentiu o coração bater mais rápido.
É falso, repetiu para si mesma. Ele está representando.
- Não foi num grande evento, nem numa festa importante. Foi numa noite fria, num lugar que ninguém lembraria. Mas eu lembro. Eu lembro de tudo… E a partir daquela noite minha vida teve um norte.
- Mais que isso minha vida passou a ter cores, motivação e foi por esse motivo que eu pude construir tudo o que tenho hoje.
Ele esta exagerando demais na encenação. Lorena não conseguia respirar. As mãos tremiam, e ela não sabia se era de nervosismo, de medo, ou de algo que ela ainda não tinha coragem de nomear.
- Eu te amo - disse Dante, com os olhos cheios de sinceridade.
O coração de Lorena pulsava com força, eles não tinham combinado isso, como ele podia dizer aquelas palavras tão levianamente.
Ele estendeu a mão para segurar a dela, deslizando um anel de diamantes no seu anelar esquerdo
- Eu não vou pedir pra você dizer que sente o mesmo. Não vou pedir pra você fingir. Só vou pedir uma coisa.
Lorena sentiu os olhos arderem.
- Fica. Fica comigo. E me dá a chance de mostrar que isso aqui pode ser real.
O juiz de paz olhou para Lorena.
Foi suave no começo, quase uma pergunta. Os lábios dele roçaram os dela com delicadeza.
Lorena sentiu o toque como um choque leve. Os lábios dele eram quentes, macios, e algo dentro dela se aqueceu antes que pudesse pensar.
Dante experimentou a doçura daqueles lábios que há tantos anos queria provar. O gosto era melhor do que qualquer sonho, e ele sonhou, tantas vezes, com aquele momento. Algo que ele tentava enterrar no fundo do peito veio à tona com uma força que o surpreendeu: desejo, sim, mas também alívio. Como se, finalmente, algo que estava quebrado se encaixasse.
Ele aprofundou o beijo.
Os lábios dela se abriram, cedendo ao movimento dele, e ele sentiu a língua dela roçar a sua. A mão dele subiu, encontrando a nuca dela, puxando-a suavemente para mais perto. O calor do corpo dela contra o dele, a respiração que se misturava, o perfume que agora ele associava apenas a ela.
A língua deslizou para a boca dela, experimentando, explorando, como se ele quisesse memorizar cada centímetro, cada sabor, cada reação.
O mundo ao redor desapareceu.
Os convidados, as flores, o sol, os sussurros, nada existia além daquele beijo.
Dante teria continuado ali indefinidamente. Poderia ter ficado horas, dias, uma vida inteira perdido naquele momento.
Mas Lorena o afastou.
A mão dela pressionou suavemente o peito dele, e ele recuou, os olhos ainda fechados por um segundo, como se quisesse prolongar a sensação. Quando os abriu, viu o rosto dela corado, os lábios levemente inchados, a respiração ofegante.
- Dante… - ela sussurrou, a voz falhando.
Ele não respondeu. Apenas a observou.
O silêncio entre eles foi curto, mas carregado de tudo o que nenhum dos dois tinha coragem de dizer.
Lá fora, os convidados aplaudiam.
Mas dentro daquele altar, o tempo ainda não tinha voltado a passar.

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