O beijo ainda ecoava nos lábios de Lorena quando Dante a conduziu pelo braço em direção à área do jardim onde as mesas estavam postas. Os aplausos ainda ressoavam, e os sussurros já se misturavam às risadas e ao tilintar das taças.
Lorena tentava recuperar a respiração. O coração ainda batia rápido, e os lábios ainda ardiam não de dor, mas de memória. Ela sentia o olhar de Dante ao lado, a mão dele quente e firme sobre a sua, guiando-a com uma segurança que contrastava com o tremor que ela ainda percebia em seus dedos.
Foi real, pensou. O beijo foi real.
Mas antes que pudesse aprofundar aquele pensamento, algo mudou.
O burburinho dos convidados começou a ganhar outro tom. Não era mais a alegria da festa. Era algo mais agudo. Mais tenso.
Primeiro, foi o barulho. Um estrondo metálico vindo da entrada da mansão - o som inconfundível de metal contra metal, de algo sendo arrancado do lugar. Depois, o ronco de um motor acelerando, alto demais, agressivo demais para o ambiente tranquilo do jardim.
- O que foi aquilo? - alguém perguntou, a voz trêmula.
- Estão invadindo?
Os convidados começaram a se levantar, os olhos fixos na direção do portão. Os seguranças corriam, mas já era tarde.
O carro preto avançou pelo caminho de pedras, os pneus cantando no asfalto, jogando terra e cascalho para os lados. Os convidados se dispersaram em gritos, alguns derrubando cadeiras, outros se afastando em direção às saidas.
O carro parou no meio do jardim.
O motor roncava, ameaçador.
E então a porta se abriu.
Rafael desceu.
O terno escuro estava amassado, a gravata frouxa, os olhos vermelhos e injetados. O corte no supercílio ainda estava aberto, e o sangue já começava a escorrer novamente, misturando-se ao suor. Mas não era a aparência que assustava. Era o olhar.
O olhar de quem já não tinha nada a perder.
- Rafael - o nome escapou dos lábios de Lorena antes que pudesse conter.
Dante se moveu instintivamente, colocando-se à frente dela, o corpo ereto, os braços abertos em um gesto de proteção.
- Fica atrás de mim - ordenou, a voz baixa.
- Não se aproxime da minha esposa - Dante disse, a voz firme, mas ainda controlada.
Rafael riu. Um riso baixo, sem humor, que ecoou pelo jardim silencioso.
- Sua esposa? - repetiu, como se a palavra fosse veneno. - Ela é minha esposa. Sempre foi minha.
Ele deu um passo à frente.
Os seguranças hesitaram. Ninguém sabia ao certo o que fazer. Rafael ainda era uma figura poderosa, e ninguém ali queria ser o primeiro a agir.
- Você acha que um papel assinado por um juiz vai mudar o que é meu? - Rafael continuou, os olhos fixos em Lorena. - Eu lutei por você. Eu esperei por você. Eu fiz tudo por você.
A voz dele começou a subir.
- E você me troca por ele? Por esse bastardo?
- Rafael… - Lorena começou, a voz trêmula.
- Cala a boca! - ele gritou, avançando mais um passo. - Você não tem o direito de falar o meu nome. Não depois do que fez.
Dante não recuou.
- Você está bêbado - disse, a voz fria. - E está fazendo papel de ridículo na frente de todos.
Rafael desviou o olhar para ele, e algo mudou em seu rosto. A fúria ainda estava ali, mas agora havia também um sorriso. Um sorriso torto, perturbado.
- Ridículo? - repetiu. - Eu vou te mostrar o que é ridículo.
Ele se virou para os convidados, os braços abertos como se fosse dar um discurso.
- Vocês sabiam que esse homem aí - apontou para Dante - matou a própria mãe? Meu avô ainda o criou? E como ele paga? Roubando a minha mulher.
Os sussurros se espalharam entre os convidados. Jonas segurou Laura, que tremia. Clara mantinha o rosto impassível, mas os olhos estavam arregalados.
Dante deu um passo à frente.


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