Lorena estava sentada na cama, tentando se convencer de que o perigo passou os ombros curvados, as mãos apoiadas sobre o vestido que agora parecia pesar mais do que antes. Laura estava ao lado, segurando a mão da filha com força, os olhos ainda marejados. Jonas tinha ido para a cozinha preparar uma canja, algo para fazer, algo para aquecer, algo para não pensar no que tinha acontecido.
- Eu nunca imaginei que ele pudesse fazer uma coisa dessas - Laura disse, a voz baixa, trêmula. - Rafael sempre foi tão… controlado. Tão educado. Nunca imaginei…
- Ele não é mais aquele homem, mãe - Lorena respondeu, a voz cansada. - Talvez nunca tenha sido.
Laura apertou a mão dela.
- E o Dante… ele se colocou na frente. Com uma arma apontada para a cabeça.
Lorena sentiu o coração apertar.
- Ele fez isso por você - Laura continuou, os olhos fixos na filha. - Ele se arriscou. Por você.
- Eu sei.
- Quando vocês se aproximaram tanto? O que aqueles jornalistas falaram é certo?
Lorena desviou o olhar, os dedos apertando o tecido do vestido com mais força. A pergunta da mãe tinha encontrado um lugar que ela mesma evitava tocar.
- As coisas não são tão simples, mãe.
- Você traiu aquele maluco ou não? Isso é simples não…
- Não… eu nunca traí Rafael
- Então quando foi que você e Dante começaram a ficar juntos? Tudo foi tão rápido e mesmo assim aquele garoto parece te amar profundamente…
Lorena não respondeu de imediato. Os dedos tamborilavam sobre o tecido do vestido, a mente voltando aos votos, ao olhar dele, ao beijo.
- Mãe… na verdade - disse, finalmente. - Ele só me ajudou. Quando eu não tinha para onde ir, quando eu não tinha ninguém, ele me deu trabalho, um lugar para ficar, segurança.
Laura a observava em silêncio.
- Será que ele já te amava há tempos? - Laura tentou puxar na memória se ja tinha encontrado Dante antes em alguma festa dos Menezes.
- Na verdade ele me ajudou para se vingar de Rafael - Lorena repetiu o que ela vinha dizendo para si mesma desde aquela noite, em que Dante foi atrás dela na saída do restaurante, mas cada vez que repetia isso parecia fazer menos sentido.
- E o casamento? - Laura parecia incrédula com os olhos fixos nela, esperando a verdade.
- Foi uma forma de ajudá-lo - respondeu, baixo. - Depois do vazamento na empresa, os acionistas estavam desconfiados. Ele disse que se eu fosse chamada de espiã, de traidora, seria pior para os dois. O casamento ia limpar minha imagem. Mostrar que eu não era uma ameaça.
Laura ficou em silêncio por um segundo.
- Então esse casamento é falso?
A pergunta pairou no ar.
Lorena não respondeu de imediato. Os votos de Dante ecoavam na mente. "Eu te amo. Desde antes de você saber quem eu era. Desde antes de você saber que eu existia."
- Sim - respondeu, mas a palavra saiu tão baixa que parecia mais uma pergunta do que uma afirmação.
- Que loucura é essa?
- Mãe…
- Lorena, aqueles votos não pareciam de mentira - Laura interrompeu, a voz mais firme agora. - E se fosse só um casamento falso, vocês podiam ter ido ao cartório. Assinado os papéis. Resolvido.
Lorena apertou os lábios.
- Dante disse que se a gente fizesse escondido, iam dizer que a gente estava se escondendo. Que a gente tinha algo a esconder.
Laura balançou a cabeça devagar.
- Isso não explica o olhar dele. Não explica a forma como ele te olhou. A forma como ele falou.
- Mãe…
- Eu não estou dizendo que você tem que sentir alguma coisa, filha - Laura segurou as mãos dela com mais força. - Mas não minta para si mesma. O que ele fez hoje… ninguém faz por fingimento.


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