A mansão estava silenciosa quando Dante finalmente atravessou a porta.
O relógio na parede do hall marcava bem depois da meia-noite, os ponteiros quase se encontrando no escuro. A lua alta banhava o mármore do chão com uma luz fria, criando sombras longas que se estendiam pelos corredores vazios.
Dante fechou a porta atrás de si com um cuidado que não combinava com o cansaço que carregava nos ombros. O terno estava amassado, a gravata frouxa, o cabelo ainda mais desalinhado do que de manhã. As horas no escritório, as ligações com os advogados, as reuniões com a imprensa, tudo tinha sido um esforço para manter Rafael atrás das grades o maior tempo possível.
Ele queria que o primo pagasse. Queria que ele sentisse o peso daquilo que fez.
Mas agora, naquele silêncio, a fúria dava lugar a outra coisa.
Cansaço. Preocupação. E uma vontade imensa de vê-la.
Dante subiu as escadas com passos lentos, os dedos deslizando pelo corrimão de madeira escura. No andar de cima, o corredor se estendia à frente, as portas fechadas, o silêncio ainda mais profundo.
Ele parou diante da porta de Lorena.
A mão hesitou na maçaneta por um segundo. Dois. Três.
Não deveria entrar. Era tarde. Ela precisava descansar. E ele não tinha o direito de invadir aquele espaço, aquele pouco de paz que ela tinha conquistado.
Mas o corpo já se movia antes que a mente pudesse impedir.
Dante abriu a porta devagarinho, o menor rangido possível, o suficiente para que apenas um fio de luz do corredor invadisse o quarto escuro.
Ela estava ali.
Deitada de lado, os cabelos espalhados sobre o travesseiro, o rosto parcialmente escondido pela sombra. O vestido da manhã havia sido trocado por uma camisola simples, e os braços estavam soltos sobre o lençol, como se ela tivesse caído no sono sem conseguir encontrar uma posição confortável.
Dante ficou parado na entrada por um longo momento, apenas observando.
A respiração dela era irregular, entrecortada por pequenos soluços que ele não ouvia, mas via no movimento dos ombros. O rosto, mesmo na penumbra, parecia contraído, como se, mesmo dormindo, ela ainda estivesse lutando contra alguma coisa.
Um pesadelo.
Dante se aproximou em silêncio, os passos abafados pelo tapete felpudo. A cama rangeu levemente quando ele se sentou na borda, o peso do corpo afundando o colchão apenas o suficiente para que ela se mexesse, mas não acordasse.
Ele não deveria estar ali. Não deveria estar tão perto. Não deveria tocar o rosto dela como se tivesse o direito de fazê-lo.
Mas não conseguia parar.
Os olhos dele percorreram o rosto dela, os lábios entreabertos, os cílios escuros repousando sobre as bochechas, a expressão agora mais calma, como se o pesadelo tivesse se afastado.
Ele se inclinou.
Devagar.
Tão devagar que o movimento era quase imperceptível.
A distância entre os lábios dele e os dela diminuía a cada segundo, e o coração dele batia tão forte que parecia ecoar no peito. Sabia que estava roubando aquele momento. Sabia que não tinha permissão. Sabia que, se ela acordasse, talvez o odiasse.
Mas não conseguia parar.
Estava a poucos centímetros quando os olhos dela se abriram.

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