Lorena piscou, confusa, os olhos ainda turvos pelo sono. O rosto dele estava ali - tão perto que ela podia sentir o calor da respiração dele.
- Dante…? - a voz saiu falhando, um fio de som.
Ele congelou.
O coração disparou.
O mundo pareceu parar.
Dante recuou bruscamente, como se tivesse levado um choque. O movimento foi tão desajeitado que ele quase caiu da cama, as mãos se apoiando no colchão para manter o equilíbrio, o rosto corado como ele não lembrava de estar há anos.
- Eu… - começou, a voz falhando. - Eu ouvi você murmurando. Achei que… que você estava tendo um pesadelo.
Lorena ainda estava meio sonolenta, os olhos tentando se ajustar à penumbra do quarto. A voz dele parecia distante, como se estivesse vindo de outro lugar.
- Eu estava - respondeu, passando a mão pelo rosto. - Teve uma arma. Muito sangue. E você…
A frase não se completou.
Dante sentiu o peito apertar.
- Não aconteceu nada - disse, a voz mais firme agora. - Eu estou aqui. Está tudo bem.
Lorena assentiu, ainda tentando se convencer. Aos poucos, o sono foi dando lugar à lucidez, e as lembranças do dia começaram a voltar. A festa. A arma. Rafael.
- O que aconteceu com ele? - perguntou, a voz mais alerta agora.
Dante se endireitou na cama, ainda desconfortável, mas tentando recuperar a compostura. Não precisava perguntar quem era.
- Ele está detido. Os advogados estão tentando mantê-lo preso o maior tempo possível. Eu não vou deixar ele sair tão cedo.
Lorena sentiu um misto de alívio e cansaço.
- E a imprensa?
- Controlada. Por enquanto.
Lorena suspirou, passando as mãos pelos cabelos. Aos poucos, o peso do dia voltava a se instalar nos ombros.
- Eu preciso te pedir desculpas. O que aconteceu hoje… eu não vou deixar que aconteça novamente.- disse, se torturando.
- Dante, você não pode se culpar pelo que aconteceu hoje - disse, a voz cansada.
- Na verdade, a culpa foi minha. Eu devia ter previsto…
- Você não tem como prever a loucura de alguém - ela interrompeu - E se for para culpar alguém deveria ser eu…
- Não - Dante respondeu rapidamente, desviando o olhar.
Lorena se levantou de vez.
O movimento foi rápido demais.
A testa dela encontrou o nariz dele com um impacto seco.
Dante grunhiu, recuando, a mão levada ao nariz.
- Ai!
- Meu Deus! - Lorena levou a mão à própria testa, os olhos arregalados. - Dante, eu não vi… desculpa…
- Não está doendo - ele tentou dizer, mas a voz saiu abafada pela mão que ainda apertava o nariz. - Tudo bem. Não foi nada.
- Você está sangrando?
- Não. Só encostou.
Lorena se aproximou, tentando ver melhor na penumbra.
- Deixa eu ver.
- Não precisa.
- Dante…
- Eu disse, não foi nada.
Ele recuou mais um pouco, os olhos ainda fixos nela, o rosto ainda corado.
Lorena tateou a parede perto da cama até encontrar o interruptor.
A luz acendeu.
Quando olhou direito para ele, seu nariz escorria sangue.
O sangue ainda escorria do nariz dele.
- O kit - Lorena disse, finalmente. - Onde você guarda?
- No banheiro. Armário branco. Segunda gaveta.
Ela foi, pegou o que precisava, e voltou. Abriu o pacote de gaze com mãos trêmulas e se aproximou.
- Inclina a cabeça para frente - pediu, a voz mais baixa.
Dante obedeceu.
Os dedos dela tocaram o rosto dele com uma delicadeza que contrastava com a confusão dos últimos minutos. A gaze pressionou suavemente as narinas, e o sangue começou a parar.
Os olhos dela encontraram os dele, e o silêncio que se seguiu foi diferente. Mais íntimo. Mais perigoso.
Dante desviou o olhar primeiro.
- Vou ficar bem - disse, a voz mais controlada. - Pode ir dormir.
Lorena hesitou.
- Dante…
- Tudo bem - insistiu, mais firme. - Amanhã a gente conversa.
Ela abriu a boca para dizer algo, mas desistiu. Apenas assentiu.
- Boa noite.
Dante se levantou, a gaze ainda no nariz, e caminhou até a porta. Antes de sair, parou.
- Lorena.
Ela ergueu os olhos.
- Nada do que aconteceu hoje foi sua culpa.
E saiu, fechando a porta atrás de si com um clique suave.
Lorena ficou ali, imóvel, as palavras ainda ecoando.

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