O táxi parecia não querer chegar nunca.
Lorena olhou para o relógio do celular pela terceira vez em menos de dez minutos. Dez e quinze. Ela prometera compensar o atraso, mas nem tinha pisado na empresa ainda. O trânsito estava pior do que o habitual, e cada minuto parada no congestionamento aumentava a ansiedade.
Quando finalmente o táxi parou em frente à Nexus Tech, já passava das dez e meia.
Ela pagou a corrida, saiu do carro e entrou no lobby com passos rápidos. O segurança a cumprimentou com um aceno, a recepcionista sorriu, mas havia algo no ar uma tensão discreta, um burburinho diferente.
No elevador, Lorena tentou adivinhar. Talvez uma reunião de emergência. Talvez algum problema com o algoritmo. Talvez Dante estivesse irritado com o atraso.
As portas se abriram.
O andar da presidência estava agitado.
Funcionários circulavam com pastas, outros cochichavam em grupos, alguns tinham os olhos fixos na porta do escritório de Dante. Lorena franziu a testa.
- O que está acontecendo? - perguntou a uma das assistentes.
- Uma visita - a moça respondeu, os olhos brilhando. - Uma amiga do Dante. Ele mandou fechar a agenda da manhã toda.
Lorena sentiu algo se apertar no peito.
- Amiga?
- Sim. Uma modelo. Super famosa. Ela está lá dentro agora.
Antes que pudesse processar, uma voz atrás dela cortou o ar.
- Cuidado, querida.
Lorena se virou.
Clara estava ali, os braços cruzados, a expressão ácida, os olhos estreitos. Ela parecia uma fera pronta para atacar ou alguém que já tinha sido ferida.
- Sua posição de esposa pode estar em crise - continuou, a voz baixa, venenosa. - Ela é a primeira investidora do Dante. E também… a melhor amiga dele.
Lorena sustentou o olhar.
- Não estou em crise.
- Não? - Clara riu, sem humor. - Então por que está com essa cara de quem viu o chão sumir?
Lorena não respondeu.
Clara se aproximou, a voz ainda mais baixa.
- Ela é linda, famosa, rica. Conhece Dante há anos. E você… você é só uma esposa de mentira.
O golpe foi certeiro.
Lorena sentiu o sangue ferver, mas não deixou transparecer. Apenas se afastou, caminhando em direção à porta do escritório.
Clara não a seguiu.
Mas os olhos dela continuaram cravados em Lorena.
Ele está nervoso, pensou. Porque para os outros somos casados, e essa proximidade com outra mulher pode ser mal interpretada.
A explicação era racional. Lógica.
Já Dante estava nervoso porque tinha passado dois dias sem vê-la. Porque tinha mandado mensagens que ela não respondeu. Porque o beijo ainda estava fresco nos lábios dele.
E ela estava ali, na porta, com uma expressão enigmática que ele não conseguia decifrar.
O que teria acontecido na casa dos pais? Será que ela estava arrependida? Será que o beijo tinha sido um erro?
Dante deu um passo à frente.
- Lorena, essa é a Helena. Uma amiga antiga.
Helena se levantou, o sorriso ainda no rosto.
- Prazer - disse, estendendo a mão. - Você deve ser a esposa. Dante não para de falar de você.
Lorena apertou a mão dela. A pele era macia, as unhas perfeitas, o sorriso sincero demais para ser verdade.
- Prazer - respondeu, a voz neutra.
Por dentro, o coração batia descompassado.
Ela não sabia se sentia ciúmes, medo, ou apenas a certeza de que, ali, naquela sala, ela era a única que não pertencia.

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