A manhã se arrastou para Lorena.
Dante passou a maior parte do tempo no escritório com Helena. As portas ficaram abertas, e dava para ouvir as risadas, as conversas animadas, o som de vozes que se entrelaçavam como se nunca tivessem se separado.
Em algum momento, ele a levou para fazer um tour pela empresa.
Lorena viu quando passaram pelo corredor: Helena ao lado de Dante, o braço dela tocando o dele em alguns momentos, os sorrisos trocados, a intimidade de quem se conhece há anos.
- Eles são mesmo próximos - comentou uma das assistentes ao lado de Lorena, os olhos brilhando de curiosidade. - Disseram que ela foi a primeira investidora dele. Que acreditou no projeto quando ninguém mais acreditava.
Lorena não respondeu. Apenas voltou os olhos para a tela do computador, os dedos tamborilando no teclado sem realmente digitar nada.
- Lorena? - a assistente chamou.
- Hum?
- Você está bem? Está pálida.
- Estou - mentiu. - Só um pouco cansada.
A verdade é que o estômago começara a doer de novo.
Nas últimas semanas, os remédios tinham mantido as úlceras sob controle. Desde o beijo, porém, algo tinha mudado. A preocupação silenciosa, o medo de se entregar, a confusão sobre o que sentia - tudo isso voltou com mais força depois que viu Helena ao lado de Dante.
E agora, a dor voltava.
Lorena abriu a gaveta, pegou o frasco de remédios e tomou um comprimido. Depois outro.
Não adiantou muito.
O relógio marcava quase uma da tarde quando Dante apareceu na porta da sala dela.
- Lorena - chamou, a voz suave. - Vamos almoçar.
Ela ergueu os olhos do computador. Helena estava atrás dele, o sorriso ainda no rosto. Theo também, falando algo baixo com a modelo.
- Eu… - Lorena começou, hesitando. - Vocês podem ir na frente. Eu vou depois.
Dante franziu a testa.
- Depois? Vamos todos juntos.
- Não precisa. Eu tenho algumas coisas para terminar aqui.
- Lorena…
- Vai, Dante. Não me espera.
O tom dela foi mais firme do que pretendia.
Dante a observou por um segundo, os olhos percorrendo o rosto dela como se tentasse decifrar alguma coisa.
- Você está bem?
- Estou - respondeu, rápida demais. - Só estou ocupada. Vou comer alguma coisa aqui mesmo. Vocês vão.
Está sim. Está com ciúmes de um homem que não te pertence.
Lorena fechou os olhos, apoiando a cabeça nas mãos.
O computador continuava ligado, a tela acesa, os e-mails não lidos. Ela tentou se concentrar, mas a dor não deixava. A preocupação não deixava. A imagem de Helena ao lado de Dante não deixava.
Pegou o frasco de remédios e tomou outro comprimido. O terceiro em menos de duas horas.
Sabia que não devia. Sabia que o médico tinha alertado sobre os riscos. Mas a dor era maior que a razão.
O celular vibrou.
Dante: Estou mandando sua salada favorita.
Lorena leu a mensagem, mas não respondeu.
Dante: Você quer mais alguma coisa?
Outra mensagem.
Dante: Lorena?
Ela deixou o celular na mesa.
Não queria responder. Não queria dar satisfação. Não queria parecer frágil.
O estômago doía. O coração doía mais.

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