O silêncio do hospital era diferente depois da meia-noite. Mais profundo. Mais íntimo. Os passos dos enfermeiros ecoavam no corredor como sussurros.
Lorena estava deitada, os olhos semicerrados, a respiração ainda fraca. O soro corria lentamente pela veia, e o cansaço pesava nos ombros como um cobertor de chumbo.
Dante ainda estava ali.
- Você precisa ir para casa - ela disse, pela terceira vez.
- Não vou.
- Dante…
- Eu não vou deixar você sozinha.
Lorena suspirou, sem forças para discutir. Ele estava irredutível, a expressão fechada, os olhos fixos nela como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento.
- Pelo menos vai para o sofá - ela cedeu.
Dante hesitou, mas assentiu. Sentia que, talvez, se não o fizesse, ela não descansaria.
- Tudo bem - disse. - Mas você precisa descansar.
- Eu vou. - Ela tentou sorrir. - Mas se precisar de alguma coisa, me chama.
- Vou chamar.
Ele se deitou no sofá.
Lorena fechou os olhos, exausta.
O sono veio rápido.
-
Dante fingiu obedecer.
Ficou no sofá por alguns minutos, ouvindo o silêncio do corredor, a própria respiração ecoando no peito. O sofá era desconfortável, pequeno demais para o corpo dele, e o tecido áspero arranhava a pele.
Ele esperou.
Dez minutos. Quinze. Meia hora.
Quando teve certeza de que Lorena dormia, levantou-se em silêncio e voltou para a cadeira ao lado da cama.
Sentou-se devagar, os movimentos cuidadosos para não fazer barulho. Apoiou os cotovelos nos joelhos e ficou ali, apenas observando.
A respiração dela era lenta, controlada. O rosto parecia mais suave, mais jovem. Os cabelos espalhados sobre o travesseiro, a mão esquerda ainda com a agulha do soro, a direita solta sobre o lençol.
Ele segurou essa mão.
Com cuidado. Como se fosse algo frágil demais para ser apertado.
O coração doía de uma forma que ele não sabia explicar. O susto de vê-la tão frágil, tão pálida, caída no chão da sala - aquela imagem ainda estava gravada na retina. Ele não imaginava que o amor que sentia por tantos anos ainda podia crescer. Mas tinha crescido. Cada dia mais. Cada hora mais.
O que ele devia fazer?
Esconder o que sentia estava sendo cada vez mais difícil. Cada olhar, cada toque, cada palavra escapava um pouco mais do controle que ele tanto tentava manter.
Mas se revelasse tudo… e ela não estivesse pronta?
Ele não podia suportar perdê-la mais uma vez.
Dante fechou os olhos, apoiando a cabeça na cadeira.
O sono não veio.
Ele não deixou.



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