Lorena, da cama, conseguia ver o corredor pela pequena janela de vidro da porta.
Ela viu Dante ao telefone. Viu a expressão dele mudar, primeiro tensa, depois mais relaxada. Ele parecia animado. Os lábios se moviam com facilidade, e em algum momento ele até sorriu.
Helena, ela pensou.
O coração pesou.
Ela desviou o olhar.
Sabia que não tinha direito. Sabia que não podia se apaixonar por aquele homem. Na verdade, ela precisava ser grata por tudo que ele fazia por ela. A única coisa que deveria fazer era desejar que ele fosse feliz com seu grande amor, e aparentemente era Helena.
Mas dói, pensou. Dói mais do que deveria.
***
No corredor do hospital estava mais movimentado agora enfermeiros circulando, macas sendo empurradas, o som abafado de vozes e carrinhos de medicação.
Ele atendeu o telefone.
- Helena.
- Dante! Como ela está? - a voz da amiga veio preocupada. - Eu queria ter ido ao hospital, mas Theo me disse que ela estava sedada.
- Ela está estável. Ainda estamos no hospital. O médico está monitorando a pressão.
- Pressão? Ela tem problema cardíaco?
- Não. Pelo menos não que a gente saiba. O médico vai fazer uns exames.
Helena suspirou, aliviada.
- Olha, eu conheço um especialista. Ele tratou da doença cardíaca da minha avó. É excelente. Se você quiser, posso marcar uma consulta.
Dante sentiu o peito apertar mas de gratidão.
- Obrigado. Eu agradeço muito. Se ele puder vir ainda hoje, seria ótimo.
- Claro. Vou entrar em contato com ele agora mesmo, te mantenho informado.
Dante não respondeu. Apenas assentiu, mesmo sabendo que ela não podia ver.
Desligou.
Ficou ali por um segundo, olhando para a porta fechada do quarto. Depois, abriu o aplicativo de mensagens.
Dante: Theo, preciso que você envie os documentos importantes para o hospital. Vou trabalhar daqui.
A resposta veio rápido.
Theo: Sério? Você vai ficar aí o dia todo?
Dante: Vou.
Theo: E a reunião com os investidores?
Dante: Vou fazer por videoconferência.
Theo: Pensei que Lorena tivesse alta hoje? Aconteceu mais alguma coisa?.
Dante: Espero que não seja nada, mas ela ainda vai ficar em observação.
Theo: Eu cuido de tudo por aqui, qualquer coisa me avisa.
Dante: Obrigado
Dante guardou o celular e voltou para o quarto.
Lorena já tinha se recomposto. A enfermeira acabara de trazer o café da manhã - uma bandeja com mingau sem graça, algumas frutas cortadas e um chá de camomila.
- Hum, parece apetitoso - Dante falou, quando viu a expressão pouco interessada dela.
- Dois diamantes por essa iguaria. - Ela respondeu pegando a colher
Ele riu baixo. Depois, pegou a outra bandeja que a enfermeira havia deixado sobre a mesa e sentou-se na cadeira ao lado.
- Você também vai comer isso? - Lorena perguntou, surpresa. - Você não está doente.
- Espírito de equipe - ele respondeu, com um sorriso. - Além disso, já peguei com a nutricionista várias receitas apropriadas. Vou aprender a fazer.
Lorena sentiu algo se aquecer dentro do peito.
Ele não pode fazer isso, pensou. Não pode ser tão… perfeito.
Comer foi uma tarefa demorada. O estômago ainda estava sensível, e o sabor do mingau não ajudava. Dante comeu no mesmo ritmo que ela, sem pressa, como se quisesse acompanhá-la até o fim.
Quando terminaram, Lorena decidiu tomar um banho.
- A empregada trouxe uma maleta - Dante disse, apontando para o armário. - Com tudo que você precisa.
O corredor do hospital era longo, cheio de portas fechadas e placas indicativas. Lorena caminhou sem rumo, os passos lentos, a mente longe.
Foi assim que encontrou o pequeno jardim.
Ficava no final do corredor, uma área envidraçada com plantas, bancos de madeira e uma fonte pequena. O cheiro era delicioso jasmim, talvez. Ela se sentou em um dos bancos e ficou ali, observando a água cair.
O tempo passou.
O celular não estava com ela - tinha ficado no quarto. Se não voltasse logo, Dante certamente iria procurá-la.
Lorena suspirou e se levantou.
De volta ao corredor, ela se aproximou do quarto.
A porta estava fechada.
Antes de colocar a mão na maçaneta, ela viu.
Pela pequena janela de vidro.
Helena estava lá.
O vestido floral longo pendia do corpo como uma cascata de flores, os cabelos claros brilhando sob a luz do quarto. Ela sorria - provavelmente para Dante. Por aquele ângulo, Lorena não conseguia vê-lo.
Mas viu quando Helena se abaixou.
Na direção do sofá.
Na direção dele.
Lorena sentiu o chão sumir.
A mão hesitou na maçaneta.
O coração disparou.
Ela não entrou.
Ficou ali, imóvel, olhando através do vidro, as pernas fracas, a respiração presa.
O que eles estão fazendo?
E por que isso dói tanto?

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