Lorena ficou ali, imóvel, os olhos fixos na pequena janela de vidro.
Helena ainda estava inclinada na direção do sofá. Lorena não conseguia ver Dante, não conseguia ver o que eles estavam fazendo. Apenas a silhueta da modelo, o vestido floral, os cabelos claros.
O coração doía.
A mão ainda hesitava na maçaneta.
- Vamos fazer a checagem.
A voz veio de trás, alta, profissional.
Lorena se sobressaltou. A enfermeira estava ali, com o carrinho de medicamentos, o jaleco branco impecável, a expressão apressada de quem tem uma lista longa de tarefas.
- A senhora está bem? - a enfermeira perguntou, franzindo a testa. - Está pálida.
- Estou - Lorena mentiu. - Só… distraída.
A enfermeira não esperou. Já abria a porta, empurrando-a com firmeza.
- Hora da checagem - anunciou, entrando no quarto como se fosse dona do lugar.
Lorena não queria olhar, tinha medo do que veria e não queria que fosse uma cena da esposa pegando uma traição em flagrante.
Mas foi inevitável.
A porta agora estava completamente aberta.
Helena estava em pé ao lado do sofá, a bolsa aberta sobre o assento. Ela segurava um frasco de vidro na mão algum medicamento, talvez. O rosto estava virado para Dante, e ela sorria, como se tivesse acabado de contar uma boa notícia.
Ao lado dela, um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, jaleco branco por cima do terno. Ele segurava uma pasta e um estetoscópio pendurado no pescoço.
Lorena sentiu o sangue subir ao rosto.
- Lorena! - Dante chamou, levantando-se do sofá. - Ainda bem que voltou. Quero te apresentar o Dr. Rivera, ele é especialista em cardiologia.
O médico deu um passo à frente, estendendo a mão.
- Prazer em conhecê-la, Sra. Menezes. Helena me falou sobre o seu caso. Vamos cuidar de você.
Lorena apertou a mão dele, a própria mão trêmula, fazia algum tempo que ninguém a chamava de Sra. Menezes e agora ela era outra Sra. Menezes, aquilo era estranho.
- Obrigada - conseguiu dizer, a voz saindo mais baixa do que pretendia.
- Foi Helena quem conseguiu a consulta - Dante completou, o olhar grato na direção da amiga. - Ela não descansou enquanto não trouxe o médico aqui.
Lorena olhou para Helena.
A modelo sorria, os olhos verdes brilhando com uma sinceridade que doía.
- Que bom que você está melhor - disse Helena. - Fiquei muito preocupada quando soube.
Lorena não soube o que responder.
A vergonha subia pelo pescoço, pelas bochechas, queimando a pele.
Ela acabara de pensar em Dante e Helena fazendo alguma coisa num quarto de hospital.
O que estava acontecendo com ela?
Parecia que só pensava em besteira o tempo inteiro.
- Vamos ver como você está primeiro - o Dr. Rivera disse, pegando o aparelho de pressão. - Sente-se, por favor.
Lorena obedeceu, sentando-se na cama. A enfermeira já preparava o braço dela para a medição, enquanto o médico observava atento.
Dante se aproximou, ficando ao lado da cama.
- Está nervosa? - perguntou, baixo.
- Não - mentiu.
Ele não acreditou. Mas não insistiu.
A braçadeira apertou o braço de Lorena. O médico observou o mostrador, a testa franzida.
- Normal - disse, finalmente. - Pressão estável. Os exames de sangue também não acusaram nada fora do comum.
Dante soltou o ar.
- Que alívio.
- Mas vamos continuar monitorando - o médico completou. - Pode ser só o estresse, como a senhora mesma disse. Mas é melhor não arriscar.


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