Quando saiu do quarto de Sara, Odete seguiu para a cozinha com a intenção de preparar o café da manhã para Renato. Mas, ao entrar, se surpreendeu ao vê-lo já de pé, encostado na bancada da pia.
— Bom dia, senhor.
— Bom dia, Odete.
Ela o observou por um instante.
— Conseguiu descansar um pouco?
Renato soltou um leve suspiro.
— Não… — confessou. — Por isso resolvi levantar de uma vez. Ficar naquela cama, virando de um lado para o outro, não me ajuda em nada.
Odete assentiu, compreensiva, sem saber muito bem o que dizer.
— A Sara já está acordada? — perguntou ele, quase de imediato.
— Sim, senhor. Acabei de levar o café dela.
Renato pareceu mais atento.
— E como ela está?
— Aparentemente… mais tranquila.
Ele passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Você acha que seria uma péssima ideia se eu fosse agora ao quarto dela?
Odete hesitou por um instante.
— Eu… não sei — respondeu com sinceridade.
Odete o observou por alguns segundos, analisando sua expressão. Era evidente o quanto ele estava inquieto.
— Acho que depende de como o senhor vai chegar lá — completou, com cuidado.
Renato franziu levemente o cenho.
— Como assim?
— Se o senhor for com calma… sem pressionar… pode ser bom.
Renato ficou em silêncio por um instante.
— Mas, se for com pressa… querendo resolver tudo de uma vez… — ela fez uma pausa — talvez acabe afastando ainda mais.
Ele respirou fundo, sabia que ela tinha razão.
— Ela… disse alguma coisa? — perguntou, com certa cautela.
Odete pensou por um segundo antes de responder.
— Disse que está cansada… e que precisa de tempo.
Ele baixou o olhar.
— Eu imaginei.
— Mas também… — acrescentou Odete, com um leve sorriso — não parece tão fechada quanto antes.
Ele levantou os olhos rapidamente.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que… talvez exista uma chance — respondeu ela.
O coração dele acelerou levemente.
— Só que essa chance… — continuou — vai depender muito do senhor.
Pensativo, Renato passou a mão pelos cabelos.
— Eu não quero errar de novo.
— Então não erre.
Ele soltou um leve suspiro e, após alguns segundos, tomou uma decisão.
— Eu vou falar com ela.
Odete assentiu.
— Vá com calma, senhor.
Fazendo um pequeno gesto de concordância, ele saiu da cozinha em direção ao quarto de Sara, com o coração mais acelerado do que gostaria de admitir. Ele bateu na porta com cuidado e esperou até ouvir a voz dela permitindo a entrada.
Ao abrir, seu olhar encontrou imediatamente os olhos verdes de Sara.
Aqueles olhos… Tinham um poder que o desarmava por completo.
— Eu fiquei com medo — Renato confessou. — Quando vi o carro dela lá embaixo… alguma coisa me disse que tinha algo errado. Se não tivesse chegado a tempo… — ele parou, como se não conseguisse terminar a frase.
— Mas você chegou — o cortou. — Mais uma vez você chegou… e salvou a minha vida. Eu nunca vou me esquecer disso.
Ao ouvir aquilo, Renato sentiu algo apertar dentro de si. Teve um impulso imediato de se aproximar mais, de tocá-la e diminuir a distância entre eles, mas se conteve. Sabia que dar aquele passo agora poderia ser interpretado da forma errada.
Poderia parecer pressão e era a última coisa que queria.
— Eu não fiz mais do que a minha obrigação, ainda mais quando o culpado de tudo o que aconteceu fui eu — respondeu, com sinceridade.
Sara ergueu o olhar para ele.
— Não pense assim… Como disse antes, não dá para controlar tudo.
Ele assentiu de leve.
— Eu sei.
Houve um breve silêncio antes de ela perguntar:
— E… como vai ficar a situação da Lorena?
Renato endureceu o olhar no mesmo instante.
— Ela vai responder por tentativa de homicídio… e invasão de propriedade privada — respondeu, direto.
— Isso é sério…
— É muito sério — completou ele. — Não tem como alguém passar a mão na cabeça dela.
— De qualquer forma… eu nunca imaginei que ela chegaria a esse ponto — disse Sara, ainda abalada.
Renato a encarou com o semblante sério.
— Nem eu… — respondeu. — Mas ela chegou.
Fez uma breve pausa, endurecendo ainda mais o olhar.
— E agora vai pagar pelo que fez.
O silêncio se instalou por alguns segundos, até que Sara levou a mão à barriga, como se, instintivamente, buscasse proteção.
Percebendo o gesto, naquele instante, Renato teve ainda mais certeza de que não podia falhar de novo. Nem com ela, nem com o filho deles.

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