Mais uma manhã em que acordava naquela casa enorme, com a sensação incômoda de estar sempre sozinha. Tudo parecia monótono, sem graça, como se os dias se repetissem do mesmo jeito, apenas mudando o horário da luz entrando pela janela.
E, por mais que estivesse em “paz”, sem nenhuma pressão vindo de nenhum lado, Sara não conseguia negar o quanto estava triste.
Desde o atentado contra Renato, não havia saído mais de casa. Se limitava a deixar o quarto apenas para comer e, às vezes, caminhava até o jardim para se encontrar com Humberto e trocar algumas palavras com ele. Era pouco, mas era o suficiente para que ela não se sentisse totalmente desconectada do mundo.
Nos dias que se seguiram, viu a polícia ir até ali para averiguar o estado do veículo dele e recolher as imagens da câmera do veículo.
Às vezes, via Odete pelos corredores, mas a mulher estava tão ocupada na ausência de Lorena que mal tinha tempo de parar. E Sara, com receio de atrapalhar, acabava se mantendo distante, falando o mínimo possível.
Naquele dia, no entanto, sentiu algo diferente no ar. A casa parecia mais movimentada, com sons discretos vindo de outros cômodos, portas se abrindo e fechando, passos que não costumava ouvir.
Cansada de ficar presa naquele quarto, decidiu sair para caminhar um pouco no jardim em frente à casa. O ar da manhã ainda estava fresco, e havia algo quase reconfortante no som dos pássaros e no vento leve entre as folhas.
Foi então que encontrou Humberto. Ele estava podando alguns galhos de uma árvore, concentrado, com as mangas da camisa dobradas e as mãos firmes no trabalho.
Ele era lindo, não podia negar.
O jeito calmo, a postura… tudo nele parecia transmitir segurança, como se nada no mundo fosse capaz de abalá-lo de verdade. E talvez fosse justamente isso que a deixava tão confusa. Humberto a tratava com uma delicadeza à qual ela não estava acostumada a receber. Não havia pressa, não havia cobrança, não havia ironia escondida entre as palavras.
Ainda assim, assim que aquele pensamento atravessou sua mente, um peso caiu sobre ela.
Indigna.
Era assim que se sentia.
Como se não tivesse o direito de notar a beleza de alguém, de se permitir enxergar qualquer possibilidade de afeto, depois do que havia acontecido entre ela e Renato. Mesmo que não existisse nada sentimental entre eles, sentia que existia um antes e um depois.
E, depois dele, parecia errado demais pensar em qualquer outra coisa.
Assim que a viu se aproximar, Humberto ergueu o olhar e a observou por um instante, como se fosse capaz de enxergar além do semblante quieto dela.
— Como você está hoje? — perguntou, notando a expressão cansada em seu rosto.
Jogando aqueles pensamentos para longe, suspirou antes de responder.
— Estou entediada — explicou, sem rodeios.
Com os olhos atentos, ele esboçou um sorriso discreto.
— Pelo menos você está tendo um pouco de paz.
— Isso é verdade… — ela concordou, mas a frase não saiu inteira. Havia sempre um “mas”. — Mesmo assim, não deixo de me sentir só.
Ele parou o que estava fazendo. Apoiou a tesoura de poda com cuidado ao lado e deu alguns passos na direção dela, diminuindo a distância sem pressa, como se não quisesse assustá-la.
O motorista foi o primeiro a puxar a cadeira para perto. Lorena se aproximou do banco do passageiro traseiro e, com cuidado, ajudou Renato a sair.
Ele surgiu devagar.
O corpo parecia mais rígido, o rosto um pouco mais pálido do que ela lembrava, mas ainda assim… a presença dele era impossível de ignorar. Mesmo sentado na cadeira de rodas, havia algo no jeito como ele olhava ao redor, como se estivesse procurando por alguma coisa.
— O Renato chegou… — ela disse, surpresa, sentindo que a voz saiu mais baixa do que pretendia.
Humberto não respondeu de imediato. Apenas ficou ao lado dela, observando a cena com uma expressão difícil de decifrar.
Enquanto era levado para a porta de entrada, ele continuou procurando por algo… e então, inevitavelmente, seu olhar parou nela.
Sara travou no mesmo instante.
O olhar dele era frio. Frio como no dia em que se conheceram.
De repente, sentiu o corpo inteiro se arrepiar apenas por causa daquela expressão. Um arrepio rápido, instintivo, que percorreu sua nuca e desceu pelas costas, como se o ar ao redor tivesse mudado de temperatura.
Ela não sabia o que aquilo significava exatamente… mas uma coisa era clara.
Renato não parecia nem um pouco de bom humor.

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