“Tess, seu salário deste mês foi cortado.”
Assim que o dia começou a clarear, a supervisora de rua, Esther Frost, jogou um papel na direção de Tess com um olhar de desprezo.
O sol mal havia nascido, e uma luz pálida se espalhava pelo horizonte.
O vento gelado castigava as mãos de Tess, tornando quase impossível segurar a vassoura.
Ela se virou, atônita.
“O que a senhora disse, dona Frost? Isso não pode estar certo. Ainda é dia dois. Faltam vinte e oito dias de trabalho. Como posso ter perdido todo o meu salário?”
Não era pouca coisa. Aqueles três mil eram o sustento dela e de sua filha.
Esther estava envolta em um casaco de pele chamativo, comendo uma batata-doce assada ainda fumegante.
As botas acima do joelho batiam contra a calçada enquanto ela olhava Tess de cima a baixo. Com os olhos delineados e os lábios torcidos em desdém completavam sua expressão.
“Quer mesmo saber o porquê? Disseram que ontem alguém perdeu um colar de ouro, bem aqui, na sua área. Você pegou, não foi? Olha, a gente até limpa rua, mas não toleramos ladras. Devia agradecer por eu só ter descontado um mês do seu pagamento.”
Tess ficou sem reação.
Os lábios pálidos tremiam enquanto ela tentava encontrar palavras, mas o peito ardia de indignação.
Ela respirou fundo e deu um leve tapinha no pacotinho preso ao seu peito, onde Layla se remexia inquieta.
“Dona Frost, deve haver um engano. Não vi nenhum colar, muito menos peguei um!”
“E você acha que vou acreditar nisso?”
Esther puxou as mangas, tentando se proteger do vento cortante, e deu outra grande mordida na batata-doce. Parecia saborear o próprio poder.
“Por que mais estaria aqui, passando frio, se não fosse por sua causa? Deixei um escritório quentinho pra isso. Nunca devia ter te contratado. Mas já falei o que tinha pra falar. Volte pro trabalho. Quero essa rua brilhando.”
Ela apontou para o chão, onde pedaços de casca e farelos de batata-doce sujavam a calçada ironicamente, deixados por ela mesma.
Em seguida, virou-se para sair.
Mas Tess não aceitou. Segurou o braço dela.
“Então a senhora está dizendo que tenho que varrer tudo mesmo sem receber? Quero ver as câmeras. Se tiver alguma gravação, irá provar que não peguei nada!”
O rosto de Esther se fechou, e ela empurrou Tess.
“As câmeras estavam com defeito. Não tem gravação nenhuma.”
“Então como pode me acusar? Se não há prova de que o colar foi perdido aqui, como sabe que fui eu quem pegou?”
Tess percebeu a contradição e insistiu.
Esther estalou a língua. “Ah, esperta você, hein? Se acha que estou te acusando à toa, leva o caso pra justiça. Que saco.”
Ela falava com confiança.
No fundo, sabia que Tess era só uma mãe solteira sem estudos, que mal conhecia os próprios direitos.
Com um gesto exagerado, virou e foi embora.
Tess ficou parada, sem forças, sentindo o chão sumir sob os pés.
Ela sabia muito bem que, se isso fosse parar num tribunal, bastava o passado dela vir à tona e pouco importaria a verdade. No olhar da lei, ela já estaria condenada.
E agora?
Era pra simplesmente aceitar?
Antes três mil não significavam nada.
Mas agora... Eram a fórmula, as fraldas, a comida de Layla. E ela já tinha adiantado parte do salário pra garantir as despesas do mês.
E o mês que vem? E o outro?
Será que acabaria na rua, com a filha no colo, pedindo esmola?
Ela já tinha visto mulheres assim, ajoelhadas nas calçadas, com os filhos encolhidos ao lado. Nunca imaginou que um dia seria uma delas.
Tess apertou o papel na mão, com os olhos escurecendo.
Layla se mexeu no sono. Tess abaixou a cabeça, e encarou o rostinho corado da filha e forçou um sorriso suave.
“Não se preocupe, querida. A mamãe está aqui.”
Mas por dentro, se sentia completamente perdida.
Às nove da manhã, depois de deixar Layla dormindo no dormitório, as colegas se juntaram ao redor dela.
Todas falavam ao mesmo tempo: “Tess, a gente soube que cortaram seu pagamento...”
“Você achou mesmo um colar de ouro?”
Outra retrucou: “Ah, qual é, a Tess jamais faria isso!”
Bessie, que tinha acabado de voltar do turno, puxou a garota para o lado e sussurrou: “Você andou enfrentando alguém?”
Por causa do que aconteceu no dia anterior, Bessie que tinha defendido Tess foi transferida da sua área normal para o setor mais sujo, perto da usina de lixo.
Ela agora parecia exausta, coberta de fuligem, e tremendo de frio.
Tess correu para pegar água, ensaboou uma toalha e começou a limpar o rosto e as mãos dela.
Os olhos dela ardiam.
Bessie forçou um sorriso. “Ah, não liga pra isso. Estou bem.” Ela fingiu leveza, mas os olhos marejaram.
Olhou para Layla, dormindo tranquila, e segurou a mão de Tess. “Vamos, chega de chorar. Você é mãe agora. Precisa ser forte. Sua filha vai precisar de você.”
Tess abaixou a cabeça e limpou as lágrimas com a manga.
Senhor Mitchell?
Quem diabos é Mitchell?
Não, não pode ser ele.
Depois de um tempo, Tess parou um pouco num banco. Limpou o queixo de Layla com um lenço e ajeitou a bebê nos braços antes de voltar ao trabalho.
Foi quando um caminhão de lixo passou.
Tess levantou-se e esvaziou a lixeira.
Nesse momento, viu alguém se aproximando uma senhora idosa, de cabelos prateados e roupas elegantes, andando apressada e murmurando aflita.
Ao chegar perto, ela parou e perguntou, ofegante:
“Moça, viu um anel de safira por aqui?”
O desespero na voz dela era visível.
“Meu marido me deu esse anel quando ainda era vivo. Foi nosso anel de noivado. Guardei por décadas. Até durmo com ele. Meu esposo já morreu, e aquele anel é tudo o que me restou pra lembrar dele. E agora... O perdi. O que vou fazer?”
A mulher tremia e enxugava as lágrimas com um lenço amassado.
Tess pensou por um instante, observando o desespero dela. “Não se preocupe, senhora. Vou te ajudar a procurar. Tente se lembrar: onde esteve hoje? Quando percebeu que o anel sumiu?”
A idosa franziu o cenho, confusa. “Ah, minha memória já não é boa. Fui caminhar no parque mais cedo, mas já procurei por lá duas vezes e nada. Acho que passei por essas ruas também.”
Ela parecia devastada, sem esperança.
Na mente de Tess surgiu uma lembrança.
Cerca de quinze minutos antes, ela viu Carl Tenny, o limpador do quarteirão vizinho agindo de forma suspeita. Ele se abaixou rápido para pegar algo do chão, olhou para os lados e enfiou algo no casaco com um ar furtivo.
Tess ajudou a senhora a se sentar no banco e entregou-lhe a garrafa d’água. “Aqui, beba um pouco e descanse as pernas. Ainda há chance de encontrar.”
Ela sabia que, qualquer que fosse o valor do anel, não chegava perto do amor que aquela mulher sentia pelo marido.
Foi então que vários homens de terno preto vieram correndo do lado do parque. Pararam diante da idosa e baixaram a cabeça respeitosamente.
Um deles falou: “Senhora Vale, revistamos o parque inteiro. Não encontramos nada.”
O pouco de esperança que restava nos olhos de Jessie Vale se apagou. “Oh, não... O que vou fazer agora?”, murmurou.
Tess observou aqueles homens altos, sérios e vestidos com elegância tratando a senhora com quase reverência.
Quem quer que fosse aquela mulher, era alguém de posição.
E Tess não pôde deixar de pensar em como tinha caído baixo.
Antes, era uma advogada brilhante, o novo nome de destaque de Aetheris, destemida no tribunal, elogiada nos jornais. Agora, era uma faxineira de rua, com o salário cortado por uma supervisora mesquinha que nem olhava pra sua cara.
Há um ditado: ‘Pra encarar onça, tem que ter coragem de caçador.’
Tess olhou de novo para Jessie elegante, influente, poderosa e uma ideia começou a tomar forma em sua mente.
Ela deu um passo à frente e disse com firmeza:
“Senhora, acho que posso te ajudar a encontrar seu anel.”

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