Artemísia
O cheiro de Aurin ainda funciona como um calmante; não resisto a subir um pouco a mão para sentir a maciez dos cabelos na sua nuca.
Aurin não demonstra surpresa alguma; é um hábito que venho tentando diminuir nesses dois anos: o de não amá-lo.
Ele pousa na entrada da alcateia de Garras de Gelo.
— Obrigada, Aurin.
— Sempre que precisar, Temi.
Ele me lança aquele sorriso de canto de lábios, irresistível, que me faz suspirar. Viro-me, cortando nosso contato visual, e sigo para o centro da alcateia.
Não precisei me identificar: os guerreiros já sabiam quem eu era. Meu avô Gustavo discutia com alguns homens; o beta Felipe estava à margem, ouvindo atentamente, com a expressão séria e o maxilar fechado.
— Vô, vim conversar — digo.
— Você veio cumprir o contrato? — ele pergunta. — Veio se vincular a Felipe aqui, na frente da alcateia?
Respiro fundo, tentando me acalmar.
— Ela não quer se expor dessa maneira — Felipe intervém, levantando o rosto e farejando o ar. Seus olhos se estreitam, escurecendo. — E você sabe que já fomos íntimos.
— São as regras — diz um ancião decrépito. — Ela terá que cumpri-las como todas as Lunas.
— Essas regras são arcaicas — tento argumentar com o ancião. — Estamos em outros tempos.
— Nós só estávamos aguardando que o irmão dela voltasse com sua Luna para participar da cerimônia conosco. — ele acrescenta.
— Você desrespeitou nossas tradições, Felipe. Sabe o quanto essa cerimônia é importante para o nosso povo! Você foi criado ouvindo nossos costumes; deveria ter se negado a levar nossa benção a outra matilha.— o ancião repreende.
— Estou pronto para cumprir minha punição, Alfa. — Felipe fala firme, dirigindo-se ao centro, entre dois postes.
— Vô, não tem necessidade disso! Pare com essa sandice. Você tem dois netos; herdeiros não vão faltar a Garras de Gelo — protestei.
Um dos guerreiros amarrou o braço esquerdo de Felipe ao poste. O olhar dele caiu sobre mim.
— Isso é ridículo — disse eu. — Fui eu quem o chamou; eu escolhi me entregar a ele em outra alcateia. Se alguém deve ser punida, sou eu.
O outro braço foi amarrado; uma multidão rodeou onde estávamos. O ancião decrépito pegou um chicote de prata e mergulhou-o numa bacia com acônito.
— Eu aceito! Eu aceito, por favor, parem! — gritei, debatendo-me enquanto meu avô me segurava.
Quando o chicote desceu sobre as costas de Felipe, rasgou a roupa e começou a pingar sangue. O acônito impedia que seu lobo cicatrizasse a ferida.
O burburinho na multidão aumentou; todos se perguntavam por que o beta estava sendo castigado. O chicote estalou de novo, e eu me encolhi, chorando alto.
— Fique quieta e deixe que ele receba sua punição com honra — ordenou o ancião.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...