Artemísia
Ao passar pelo corredor, percebo os olhares das ômegas me avaliando de cima a baixo. Na pressa de fugir de Felipe, peguei apenas uma calça jeans e uma camisa preta de rock, de um show antigo ao qual fui. Meu serviço na alcateia do Sul nunca exigiu vestimentas formais; eu sempre ficava enfurnada no escritório da casa do meu avô Godric e frequentava aquele lugar desde que saí do ventre da minha mãe.
Começo a explorar o lugar gigantesco. Um palácio nefasto. Tão silencioso, macambúzio e sombrio que, se fosse um passeio, eu teria pedido para ir embora imediatamente. Para piorar, o clima, assim como meu humor, havia mudado; estava frio a ponto de bater os dentes.
Serpenteio por todos os cômodos, abrindo cada porta à minha frente com determinação.
Quase morro de susto ao abrir uma delas e a serva gritar mais alto do que eu.
— O que faz aqui?
Ela aponta para o canto do cômodo, onde estão uma vassoura, um rodo e um pano de chão.
Estalo a língua e cruzo os braços, observando a jovem de coque apertado e uniforme cinza-claro.
— Estou fazendo meu trabalho. E você, quem é? Não sabe que não pode andar sem uniforme dentro do castelo? Se dona Simone te pega, você está frita.
Seu olhar demonstra urgência, e acho que encontrei a primeira pista do conselho da minha mãe: um ômega de confiança é a chave para saber tudo em um lugar novo.
— Há quanto tempo trabalha aqui?
Inclino a cabeça para o lado, e a menina parece confusa.
— Eu cresci aqui. Minha família serve a família dos lobos reais há gerações.
— Interessante.
Ela me observa com mais atenção. Seus olhos se arregalam e, em seguida, ela se curva.
— Luna, me desculpe por não reconhecê-la.
— Não se curve mais. Acho isso desnecessário. E, ao que parece, seremos companhia constante uma da outra.
Ela franze a testa, confusa.
— Como se chama?
— Lucila.
— Quantos anos você tem, Lucila?
— Quatorze.
— Hum… vai ter que servir.
— Pra quê?
Simples e espontânea. Lucila será de grande valia.
Enquanto ela me guia por cada canto do castelo, vai me informando quem é quem naquele lugar, quais são as demandas das fêmeas e o que comentam entre si sobre o que esperam de uma Luna. Infelizmente, um dos maiores problemas é o medo. Muitas querem ir embora para outras alcateias, receosas de parear e engravidar de um Lobo Real. Por isso, o número da alcateia vem diminuindo consideravelmente ano após ano.
Como posso resolver isso?
Na mesa do almoço, vejo Gustavo e Felipe se encarando como dois estranhos; arrumados, educados e frios como cubos de gelo.
Apoio o cotovelo na mesa e seguro a cabeça entre os dedos, entediada.
— Quero uma reunião com as fêmeas amanhã pela manhã.
— O que você quer com elas? — vô pergunta.
— O senhor me trouxe aqui, não foi? Então terá que me deixar fazer o que as Lunas fazem.
Falo enquanto observo uma cutícula invisível, abrindo um sorriso de canto forçado. Os dois começam a comer, desconfiados.
Após o almoço, sigo para meu quarto para colocar uma roupa decente.
Felipe entra e fecha a porta atrás de si.
— O que pretende fazer?
— Por enquanto, organizar as fêmeas e avaliar a capacidade delas. Conhecê-las. Escutá-las.— omito o principal.
Pego a roupa que vou trocar.
— Onde vai?
— Buscar meu computador e alguns pertences na matilha do Sul.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...