Artemísia
Na penumbra do escritório, girei minha cadeira de um lado ao outro. As palavras do curandeiro ecoavam a todo instante em minha mente. Na tela, os resultados das fêmeas que haviam conseguido um companheiro eram extraordinários — até melhores do que eu previra — mas eu sequer tinha ânimo para comemorar. Os lobos estavam chegando com suas fêmeas e logo o número de filhotes começaria a crescer. Olhei para o relógio: já era madrugada.
Desliguei o computador e resolvi dar uma caminhada, soltar minha loba, que estava confinada há dias, e explorar pela primeira vez a floresta de Garras de Gelo. Toda a casa estava mergulhada na escuridão e silêncio. Enquanto caminhava até a porta, continuava me perguntando de que adiantava ser eu a Luna e não Aquiles, já que, pelo visto, eu também não daria herdeiros a Garras de Gelo.
Lá fora, um vento gelado e o farfalhar das folhas pareciam me chamar. Tirei minha roupa, dobrei e coloquei em um banco próximo à entrada. Desliguei minha mente cansada, cedendo o controle à minha loba. Fiquei apenas sentindo sua satisfação ao se embrenhar na floresta. Um uivo alto e forte chegou aos nossos ouvidos, chamando-nos. Corremos ao encontro da criatura: um lobo menor, mas mais robusto. O lobo raspava as unhas no chão, exigindo submissão.
Minha loba não se impressionou com a forma dele e lhe deu as costas, esnobando-o. Furioso com o desrespeito, o lobo tentou subjulgá-la com força física. Mas minha loba, treinada desde pequena com os machos ferozes da minha família, sequer precisou se esforçar para vencê-lo. Dominou a briga, colocou suas patas sobre ele e mostrou os dentes de guerra, forçando-o a voltar à forma humana e humilhando-o.
— Felipe... — seus olhos emanavam dor.
Voltei à minha forma humana.
— Eu machuquei você? — corri até ele, procurando por arranhões e cortes, mas não havia mordidas. Minha loba fizera tudo de propósito.
Felipe puxou seu braço com força.
— Por que sua loba me atacou? Porque ela não se submeteu?
— Eu… não sabia que era você…
— Não me ouviu em sua cabeça? Não sentiu meu cheiro, Artemísia? Que tipo de companheira é você?
— Eu não senti… estava distraída. Dei total controle a ela. Sinto muito.
— Faltam menos de dez dias para nossa União. Como será a união entre nossos lobos se sua loba se recusa a se submeter a mim? Quer me humilhar na frente de todos, é isso?
— Não! Eu só saí para relaxar e entreguei o controle a ela. Mas no dia da União estarei no comando.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...