Liliane
— Enlouqueceu, por acaso? Como declina de um encontro com o seu noivo, Liliane?
Fiquei calada. Não queria levar outra bofetada.
— Ela estava nervosa, só isso — minha mãe tentou apaziguar a situação. — Liliane vai fazer uma torta deliciosa e vai pessoalmente pedir desculpa ao Alaric.
Olhei para o canto da janela enquanto Lia permanecia anormalmente quieta e concentrada. Será que ela já tinha imaginado que o futuro dela poderia ser parecido com o meu?
— Vocês me jogaram na casa daquela cobra peçonhenta? Eu sequer vou poder cuidar da minha cozinha, escolher meus alimentos, fazer o cardápio da casa! Para que fazer torta para ele se nem terei uma cozinha?
— Não seja dramática. Quando estiver vinculada a ele, é só convencê-lo a se mudar — minha mãe respondeu.
— E se o filhotinho da mamãe não quiser? Passarei o resto da vida lá! Eu odeio o que estão me forçando a fazer.
Meu pai rosnou, e eu me calei.
Mas sempre tive o defeito de deixar minhas expressões faciais falarem por mim.
Minha mãe passou o dia declamando as qualidades de Alaric. Falava mais que filhotes de quinta série enquanto fazíamos a maldita torta de carne.
Alaric é um ótimo filho.
Alaric está sempre disposto a resolver os problemas de todos na Cidade das Ômegas.
Alaric é rico.
Você viu como Alaric é lindo?
O que mais eu poderia querer na vida?
— Chega, mãe! Pelo amor que a senhora tem à deusa, chega!
— Que isso, filha? Em uma semana vocês serão companheiros. Não fale assim.
Algo em mim estalou, e comecei a chorar compulsivamente.
Minha mãe tentou me abraçar, mas eu não aceitei. Seu abraço seria ainda mais doloroso naquele momento.
À noite, quando Alaric bateu em nossa porta, trazia nas mãos um buquê de rosas vermelhas. Peguei o buquê, e suas mãos tocaram as minhas... propositalmente.
— Obrigada.
Nem consegui usar seu nome. Já tinha criado ranço.
— Achei que poderíamos conversar um pouco a sós.
Inspirei fundo. Olhei de canto: minha mãe e meu pai me encaravam com desaprovação.
— Tudo bem.
Saí, fechando a porta atrás de mim. Caminhei até uma árvore com um antigo balanço e me sentei nele.
A noite estava fresca, o céu limpo e estrelado. Algo dentro de mim se aquietou, como se todo o resto tivesse se calado para aquele momento.
— Por que exigiu minha volta antes dos dezoito, Alaric?
Essa era minha maior dúvida sobre ele.
Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios, mas não chegou aos olhos.
Alaric se aproximou e segurou a corda do balanço ao meu lado. Ficou em frente a mim, tão perto que pude sentir o calor de seu corpo. Meu coração deu um salto de ansiedade.
— Porque, quando você se transformar, quero ser o primeiro macho que sua loba vai ver. Peço à Deusa todos os dias para que sejamos companheiros. Espero que ela me atenda.
Uma parte de mim se deixou tocar por aquelas palavras.
— E se não atender? O que acontece se você ou eu encontrarmos nossos verdadeiros companheiros depois da nossa união? Seremos infelizes... ou abandonados... ou presos a alguém que nossos lobos não desejam.
Ele mordeu o lábio inferior e se aproximou do meu pescoço. Fiquei estática. Seu cheiro também chegou ao meu nariz com a proximidade.
— Alaric?
Meu corpo arrepiou, que droga.
— Muita coisa entre nossos pais depende da união entre nossas famílias. Eles não vão nos deixar em paz... pelo menos até termos um herdeiro.
Se tivessemos um filhote eu não o deixaria para trás. Provavelmente nem ele.
— Então só poderíamos nos separar depois disso? — falei, mortificada.
— Podemos apenas nos preocupar em nos conhecer primeiro? Sem meus pais ou os seus nos pressionando. O que acha?
Olhei para cada folha que voava no chão com enorme interesse. Depois encarei a porta da casa, esperando que alguém a abrisse e me socorresse.
Ele segurou meu queixo, obrigando-me a encarar seu olhar.
Vi seu rosto se aproximar e senti o calor e a maciez de seus lábios nos meus.
Segurei a corda do balanço com tanta força que minhas mãos doeram. Eu deixei que ele continuasse aquela exploração gentil.
Afinal... ele era meu noivo.
Quando se afastou, havia um brilho diferente em seu olhar.
Ele observava meu corpo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...