Adam
O sol ainda não havia nascido e minha fêmea já estava encolhida no canto da cama, quase despencando. Um muro invisível nos separava. Soltei o ar com força. Será possível que ela insista nessa infantilidade?
Levantei-me e encarei seu rosto angelical. Aquela boca em forma de coração era uma provocação silenciosa. Mas não cedi. Vesti-me e marchei até o escritório.
— O acampamento dos renegados está cercado? — minha voz soou como ordem.
— Sim, Alfa. Todos aguardam em seus postos.
Assenti.
Renegados... o câncer do nosso mundo. Escória que se esconde entre inocentes. Alguns nasceram nessa lama, outros foram arrastados para ela. A maioria morre sob nossas garras. Os que restam viram escravos até provarem seu valor — ou se tornarem companheiros.
Antes de chegar, o fedor já rasgava minhas narinas. A cena me parou por dentro: uma fêmea, amarrada de cabeça para baixo, recebia chicotadas até a carne abrir. Gritava para a Deusa levá-la. Sangue e sujeira escorriam por seu corpo. Um macho assistia, rindo, enquanto era servido por outra, ajoelhada, coleira no pescoço.
Igor rugiu dentro de mim.
A gritaria explodiu quando nos viram. Lobos avançaram, mas meus guerreiros os cortaram ao meio com a facilidade de quem respira. Eu capturei o alfa imundo. Não podia matá-lo ainda. Ele havia roubado filhas de várias matilhas para formar um harém. Eu precisava de respostas.
— Esse vem para a masmorra. Separado. — Minha voz ecoou, gelada. — Os demais, prendam. Descobriremos quem merece viver.
Cortaram as cordas da fêmea. Magra, quebrada. Ela era o ponto de partida. Mas o terror em seus olhos falou mais alto. Quando ordenei que a trouxessem, ela se urinou diante de mim... e desmaiou.
Olhei para o céu. Dê-me paciência, Selene.
Ajax a amparou antes que caísse. Seu rosto, sempre de pedra, estava marcado por dor.
— O que houve, Ajax?
— Ela... é minha companheira, Adam.
O peso de suas palavras me atravessou. Apenas assenti. Ele a levou em disparada até a curandeira.
Mais tarde, encontrei-o sentado à porta do quarto dela. A cabeça contra a parede, os olhos no teto, como se buscasse respostas que não viriam.
— E então?
— Ela acordou. Não aceita nenhum macho por perto. Nem eu. — Sua voz quebrou.
— Sinto muito.
Ele respirou fundo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.