Damon Thorn
“Então, senhor Thorn, concluímos que há pelo menos três veios de minério não explorados exatamente sob os limites da sua propriedade. O que explica o interesse súbito do governador.”
A voz do advogado soou na sala, abafada pelo som do relógio pendurado na parede, que marcava o mesmo ritmo de sempre.
Estava sentado na cabeceira da mesa de reuniões, a madeira maciça que herdei do meu pai, onde tantas decisões foram tomadas. Deveria estar satisfeito com a clareza do relatório — agora sim sabíamos o porquê de estarem invadindo nosso território — mas eu não conseguia me concentrar.
O relatório estava aberto à minha frente, as folhas preenchidas de gráficos e números, mas meus olhos estavam fixos na janela atrás de todos eles.
A floresta, silenciosa, imóvel… estranhamente vazia.
Algo dentro de mim apertava.
Passei a mão pelo queixo, sentindo a barba por fazer, o maxilar tenso como há tempos não ficava.
“Victor…” chamei, ainda olhando para fora, sem perceber que interrompia o advogado no meio de alguma explicação sobre propriedade e contratos.
O beta, sempre atento, se inclinou na direção da mesa.
“Meu Alfa.”
“Você sabe onde está Hart?”
Minha voz saiu baixa, mais como um pensamento em voz alta, mas ele ouviu.
Victor arqueou uma sobrancelha, hesitante.
“Não senhor, eu acho que Daiana informou que ela saiu para comprar algumas coisas.”
Assenti, mas continuei olhando para a floresta, para aquele caminho oculto entre as árvores, o mesmo que sempre segui quando precisava fugir do mundo.
Algo estava fora do lugar. Desde que ela me ligou, eu senti um pressentimento ruim.
Sempre soube perceber. O cheiro do perigo, o som da ausência, o tipo de silêncio que não é paz, mas aviso.
Fechei o relatório com força, fazendo com que todos na sala se sobressaltassem.
Levantei-me, ajeitando a gola da camisa, com um movimento automático.
"Reunião encerrada por hoje.”
O beta se colocou ao meu lado, como sempre.
“O que houve?”
Respirei fundo, puxando o ar com força, tentando localizar o cheiro dela no ambiente. Não havia nada. Nem perfume, nem vestígio… nada.
“Hart não respondeu minhas mensagens.”
“Talvez só tenha saído… distraída.”
Olhei para ele, e o olhar foi o suficiente para que Victor percebesse: não era só distração.
"Agradeço a presença de vocês. Descubram meios para fazer esse governador filho da puta parar, serão bem pagos para tal."
Peguei o celular no bolso, disquei.
Primeiro toque… segundo… terceiro…
Nada.
O sangue começou a correr mais rápido, como sempre corria antes de uma caçada.
Respirei fundo novamente, fechando os olhos. E então, quase como um sussurro, fraco… muito fraco…
O cheiro dela.
Misturado.
Confundido com algo que me fez imediatamente cerrar os punhos.
Eric.
O bastardo tinha se aproximado.
Senti o rosnado subindo pela garganta, abafado só pela necessidade de pensar com frieza.
“Victor.”
“Sim.”
“Acione dois homens, discretos, pela cidade. Quero saber se ela passou por lá.”
Ele assentiu.
“E você?”
Olhei novamente pela janela, o céu começava a pesar em tons de cinza.
“Eu sigo meu instinto.”
Saí da sala, deixando para trás advogados confusos e papéis inúteis.
A única coisa que importava agora era ela.
Atravessei o salão, saí pela varanda e puxei a camisa pela cabeça, deixando que o corpo assumisse o que ele sempre quis ser: lobo.
Os músculos rasgaram a pele, o osso se alargou, a mandíbula se transformou em focinho.
A pata afundou na terra úmida.
O cheiro dela agora era claro.
Misturado com o dele.
E isso…
isso não vai terminar bem.
Corri.


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