Damon Thorn
O cheiro da mata era forte, molhado de orvalho, mas nada limpava da minha pele o vazio que Hart deixou. A clareira da matilha era viva, mas dentro de mim tudo era silêncio. Alfa. Era isso que eu deveria ser — liderança, força, foco. Mas tudo em mim era Hart, era o nosso filhote, era a ausência.
Eu não podia a culpar. Não podia me culpar. Resumindo: era uma via de mão dupla.
Ela tinha razão de estar com raiva, Caroline já foi traída demais,e eu sabia como era a sensação.
Mas eu precisava resolver isso.
Passei pela roda de anciãos, cada um me cumprimentando com respeito. Mas Jarek, o mais velho, parou ao meu lado, a mão pesada pousando em meu ombro.
“Meu alfa, sua dor é tão clara quanto a luz da lua. A matilha sente quando o lobo sangra por dentro.”
Fiquei calado, a garganta fechada.
Ele falou baixo, só para mim. “Não lute contra o que a deusa une. O amor às vezes não se encaixa,podem ser de mundos diferentes, mas se foi dado a você, é sua responsabilidade protegê-lo. Se deixar a humana ir, perderá mais que uma mulher. Perderá a si mesmo.”
"Como sabe disso?" levantei a sobrancelha."
"Já tive a sua idade, meu Alfa."
Suspirei, sentindo o peso do mundo nas costas. “E se ela não quiser mais voltar?”
Jarek sorriu triste. “O destino não falha. Mas o orgulho de um alfa pode cegar até o mais sábio. Lute, Damon. Não pelo poder, mas pelo coração.”
Assenti em silêncio. Depois de tanto tempo sendo lobo, ser homem doía mais.
Tentei me concentrar nas tarefas: instruções para as rondas, ordens para os jovens, revisão dos limites do território. Mas minha mente estava presa nos olhos magoados de Hart, na dor de não ter minha família inteira. O cheiro dela ainda estava nos lençóis. A culpa me esmagava.
Eu me privei tanto tempo de amar alguém, até que ela chegou, e agora eu não queria lidar com esse sentimento.
O amor era complicado demais.
Caminhei até a cozinha comunitária, Mirella me evitou. Era medo — e culpa. O lobo em mim sentiu. Ignorei por enquanto. Algo me chamou atenção do outro lado da clareira.
Sarah, uma das lobas casadas com um dos meus melhores ômegas, estava com uma garotinha nos braços. Lia, sua filhote. Ela olhava para mim de longe, como se quisesse sumir.
Ela veio até mim. “Meu Alfa, peço perdão, mas Lia precisa te contar uma coisa. Acho importante.”
Me abaixei para ficar de frente com ela. “Pode falar, pequena. Aqui ninguém vai te machucar.”
Lia apertou os dedos, hesitante. “Eu vi você… você tava dormindo. A moça do cabelo comprido e o homem de cicatriz te carregaram. Eles riam. Falaram para eu ficar quieta se não iam me matar.”
Meu sangue gelou. “Homem de cicatriz? Você sabe quem era?”
Ela assentiu devagar. “Vi ele uma vez na festa. Mamãe disse para nunca chegar perto dele.”
Eric. Só podia ser ele. E Liana.
“Você viu mais alguma coisa, pequena loba? Alguma coisa diferente?”
Ela fez careta. “O homem tava fedendo… cheiro de folha, de fumaça. Não era cheiro de lobo.”
Sarah murmurou atrás de mim. “Disfarçaram o cheiro. Usaram ervas. Isso é velho truque de traidor.”
Me levantei, os punhos cerrados. “Obrigado, Lia. Você foi muito corajosa."


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