Capítulo 282 – Nunca tive uma filha.
Enzo
Já tive muitas dores em mia vita. Passei por muita coisa, mas nunca, em toda a minha existência, pensei em passar pelo que estou passando hoje. A dor de mia principessina era a minha. E ela era intensificada a cada palavrinha que saía de sua boca.
— Papai, tá na hora de acordar… A Maria quer um abraço.
— Papai, vamos… A Maria quer falar até logo, por favor, acorda!
— Amore mio… — Sussurrei para ela. Ela me olhou com aqueles olhinhos castanhos carregados de dor.
— Italiano, tenta chamar o papai. Talvez a sua voz ele escute, porque a da Maria é de criança.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não conseguia falar, acho que me esqueci até como se faz. A piccola Jordan, que estava ao nosso lado, com lágrimas nos olhos, pegou a mãozinha de mia bambina e disse:
— Maria, o papai agora está em um sono bem profundo. Mas ele pode te ouvir, então diz "até logo".
— Tia Jo… — Mia bambina começou. — Mas eu quero um abraço. — Ela fungava entre as lágrimas, e a piccola Jordan ficou sem reação.
— Eu aceito um abraço, amore mio. — Eu disse a ela, que olhou para mim.
— Mas eu queria um do papai… — Maria chorava. Ela não gritava, nem fazia birra, como já vi crianças fazerem. Mia bambina sofria, mas ainda era forte, e era isso que me destruía.
— E se você o abraçasse assim? — eu disse e Jordan me olhou confusa, mas eu não faria isso com a mia bambina. Ela queria abraçar o pai, e era exatamente isso que ela ia fazer.
Elena, que até então estava afastada e calada, se aproximou.
— Enzo, o que pensa que está fazendo?
— Mia bambina quer abraçar o pai e ela vai! — respondi irritado.
Alexander veio até meu lado.
— Mio amico, entendo sua dor. Também está doendo em mim, mas sabe bem que isso não pode acontecer. Não podemos mexer no corpo.
Maria tinha envolvido os bracinhos por meu pescoço, e chorava silenciosamente. Suas lágrimas escorriam por mim.
— Se não quiserem me ajudar, tenho homens para isso. E se não querem ver… — Encarei um por um que me olhava como se eu fosse um pazzo. — Se retirem! — Disse em um tom autoritário.
Giuseppe veio até mim.
— É só dizer, Don.
Virei o rostinho de mia bambina, para que me olhasse.
— Me diz, amore mio, quer abraçar seu papai mesmo que esteja dormindo?
Ela balançou a cabecinha freneticamente em um “sim”.
— Enzo, não faz isso… — Elena me pediu.
— Respeito sua dor, Elena, mas peço que respeite a dela.
Ouvi barulho de saltos ecoando pela sala, e logo a ragazza Sara se aproximou de nós.
— Te ajudo com isso, senhor Mancini. — Ela disse, vindo em minha direção.
Elena se retirou, nervosa, e notei que mia sorella e Evelyn foram atrás dela. Não me importei, lidaria com ela depois. Agora, era o momento de mia bambina.
— Como quer fazer, amore mio? — perguntei a ela, passando a mão por seu rostinho.
— Posso deitar com o papai? Quem sabe ele acorda.
Assenti para suas palavras, e notei alguns deles se retirando. Como se a imagem fosse difícil demais para se ver. Eles não entendiam como era difícil para mia bambina não poder se despedir do pai, e como era difícil para mim vê-la sofrer.
A deitei no caixão, e ela colocou a cabecinha no peito do pai. Giuseppe se colocou aos pés para segurar, Alexander e Ethan foram do outro lado, e a ragazza Sara ficou na cabeça, acariciando mia bambina. E eu… ao seu lado, pois ela se recusava a soltar minha mão.
Não sei quanto tempo passamos ali, com a Maria repetindo várias e várias vezes:
— Por favor, papai, diz “até logo” para a Maria.
Ela levantou a cabecinha para me olhar.
— Italiano, o papai não vai mesmo acordar?
Coloquei uma mão em seu rostinho.
— Sinto muito, amore mio, mas ele não vai.
Ela olhou para a ragazza Sara.
— Tia Sara… o papai não vai mais acordar.
— Eu sei, minha pequena, mas mesmo que ele não acorde, ele vai estar sempre aqui — Ela colocou a mão no coraçãozinho de mia bambina. — Com você para sempre, até chegar o dia em que vocês possam se encontrar novamente.
Ela esticou os bracinhos para mim, como sempre faz, e a peguei no colo. Maria deitou a cabecinha no meu ombro e sussurrou para mim:
— Italiano, a Maria tá com muita dor aqui, ó — Ela apontou para o peito. — E ela tá muito, muito triste. — Dei um beijo em sua cabecinha.
— Agora que já vimos o papai, o que acha de voltarmos para a casa do tio Alexander?
Ela concordou com a cabeça.
— Eu sou filha do meu papai.
— Eu sei. Mas agora que seu papai foi com o papai do céu, você aceitaria ser minha filha?
— Se eu for sua filha, você vai ser meu papai?
— Sì, amore mio. Eu seria seu papai, até o dia em que você for morar no céu com o seu papai.
— Aí eu ia ter dois papais?
— Exatamente.
— Mas e se o papai ficar triste?
— Ah, ele não vai ficar, porque io vou cuidar de você igual ele cuidava. Isso vai deixá-lo feliz.
— Vamos poder fazer panquecas?
— Certo che sì.
— Esse “chesi” é um sim?
Ri pela confusão de suas palavras.
— Isso mesmo, amore mio, isso é um sim. Podemos fazer panquecas todos os dias, e io posso comprar toda roupa rosa que quiser.
— Eu preciso pensar…
— Ah, tudo bem, eu espero por sua resposta.
Ela desceu do meu colo e deitou novamente na cama. E eu me deitei ao seu lado, passando a mão por seu cabelinho.
— Italiano…
— Pode falar, mia principessina.
— Eu já pensei.
— Ah, é? E o que decidiu, mia vita?
— A Maria quer ser sua filha.
Dei um beijo em sua testinha, depois olhei bem naqueles olhinhos castanhos.
— Que bom, amore mio. E io, quero ser seu papai.

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