PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O arco era mais pesado do que eu imaginava, mas se ajeitou na minha mão como se sempre tivesse pertencido ali, e o conforto dessa familiaridade me acalmou.
Um silêncio se espalhou pela multidão enquanto eu entrava na área delimitada. Meu estômago revirava, não de medo, mas pela consciência absoluta de quantos olhares seguiam cada um dos meus movimentos.
As regras foram anunciadas em alto e bom som: Nada de sentidos aguçados de lobisomem, apenas habilidade e concentração humanas.
Helen estava na minha frente, já preparada, com a corda do arco puxada e os olhos brilhando com uma confiança presunçosa.
Ótimo. Deixe que ela me subestime.
O funcionário responsável pelos equipamentos levantou a mão. "Primeira rodada. Três flechas cada. Maior pontuação total vence."
Inalei. Exalei. A corda recuou contra minha bochecha, a pena da flecha roçando meu maxilar.
Meu coração estabilizou quando soltei.
Toc.
Bem no centro.
Sussurros de surpresa. Palmas dispersas.
Helen atirou em seguida. Foi um bom tiro, mas um pouco longe do centro. Sua boca se contraiu e o sorriso vacilou antes de ela forçá-lo de volta.
O resto do duelo seguiu o mesmo ritmo. Minhas flechas cantaram mais precisas, mais afiadas. No tiro final, o resultado era incontestável.
O funcionário levantou o braço sobre a minha cabeça. "A vencedora é Seraphina Blackthorne."
Uma onda de aplausos ressoou pela sala, vibrante e irrestrita. Mesmo aqueles que, um momento atrás, não estavam interessados, agora se inclinavam para frente, curiosos ou impressionados.
Helen abaixou o arco, com a mandíbula tensa. Por um breve instante, achei que ela fosse ter um ataque, contestar a minha vitória ou expressar indignação por ter sido derrotada pela humilde Seraphina.
Então, com uma dignidade rígida, ela inclinou a cabeça e disse: "Como prometido, te devo um favor. Quando quiser, é só pedir."
Sorri, inclinando ligeiramente a cabeça, embora o meu peito ainda estivesse acelerado por causa da adrenalina. "Vou lembrar disso."
Mais aplausos seguiram, a aprovação me envolvendo como um sol quente.
Pela primeira vez em um lugar tão público, não eram sussurros de dúvida que acompanhavam o meu nome, era admiração.
Mas então, como uma nota dissonante interrompendo a harmonia, uma voz cortou o ar.
"Sem graça."
Aquela única palavra deslizou pela multidão, silenciando os aplausos. Meu estômago se contraiu instantaneamente. Eu conhecia aquela voz.
Abby.
Ela avançou, com os braços cruzados e os olhos brilhando de desdém. "Sério, as pessoas se deslumbram tão facilmente. Arco e flecha, dardos, arremesso de facas... essas são todas especialidades dos Lockwood. Praticamente tá no sangue deles. Na verdade, a Seraphina não fez nada mais do que cumprir a sua obrigação como filha dos Lockwood. Mas," seus lábios se curvaram, "a verdadeira rainha da arquearia sempre foi a Celeste."
O nome me atingiu como uma fagulha em lenha seca. Murmúrios curiosos surgiram e cabeças se viraram.
E claro, atraída pela atenção, a Celeste saiu graciosamente da multidão. Abby facilmente se posicionou ao lado dela, com a Emma flanqueando do outro lado.
Seu vestido captava a luz como prata tecida e o seu sorriso era suave, enganadoramente modesto. "Ah, Abby," ela disse, a voz doce como mel, fingindo humildade, "você exagera."
Mas os olhos dela... Ah, aqueles olhos brilhavam com triunfo. Seu lugar favorito sempre tinha sido em destaque.
Alguém na multidão falou, animado: "Então prove! Um desafio entre as irmãs!"
Apertei firmemente o arco. Irmãs. Essa palavra agora soava vazia, quase uma zombaria.
O olhar da Celeste se fixou em mim, carregado de falsa preocupação. "Ah, eu não deveria," ela murmurou, com um sorriso incrivelmente doce. "A Seraphina trabalhou tanto pra que essa noite fosse um sucesso. Seria cruel fazê-la sofrer uma derrota humilhante diante de uma plateia tão prestigiada."
Algumas risadas ecoaram pela multidão. Eu senti o peso dos olhares voltando-se para mim em uma mistura de pena e expectativa.
A Celeste tinha armado tudo perfeitamente. Se eu recusasse, pareceria frágil, uma covarde, como a Helen havia insinuado.
Se eu aceitasse e perdesse, confirmaria a superioridade dela.
Mas a Celeste esqueceu de uma coisa. Eu não era mais a garota que cedia para manter a paz.
Dei um passo à frente e disse, com a voz calma, mas firme: "Eu aceito."
Assim como no restaurante, quando ela não esperava que eu concordasse com o pedido dela, a compostura da Celeste vacilou e a surpresa brilhou nos seus olhos antes que ela rapidamente a reprimisse.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei