PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A Maya praticamente se atirou em mim assim que eu sai da área isolada do salão. Seus braços se apertaram ao meu redor enquanto ela gritava no meu ouvido antes mesmo que eu pudesse recuperar o fôlego.
"Seraphina Blackthorne!" ela exclamou dramaticamente, me sacudindo como se eu pudesse ter esquecido quem eu sou. "Você tem noção de quão absurdo isso foi? Vendada! Sério, parece que você saiu de uma lenda!"
As palavras dela se atropelavam de tanta empolgação e os olhos brilhavam com um orgulho quase tão grande quanto os aplausos que eu tinha acabado de receber.
Eu ri, ainda um pouco sem fôlego, dando tapinhas nas costas dela. "Não foi tão espetacular quanto todo mundo pensa. Foi só um truque que pratiquei quando estava entediada."
"Truque?" A Maya se afastou e abriu a boca. "Você faz parecer que aprendeu a embaralhar caixas de presente, não a dividir flechas vendada. Isso foi mais que um truque. Foi lendário pra caramba!"
A convicção dela fez o orgulho florescer no meu peito, mas eu dei de ombros de qualquer forma, tentando desviar o foco. Se eu ficasse muito tempo sob o calor dos elogios, sentiria a minha pele queimando.
Uma movimentação chamou a minha atenção e meus olhos instintivamente buscaram a fonte.
Do outro lado do salão lotado, meio nas sombras, estava o Kieran.
Seus olhos penetrantes e investigativos estavam fixos em mim, mas tinha algo a mais no olhar dele que eu não conseguia decifrar bem. Surpresa? Orgulho? Arrependimento?
Seja o que fosse, o peso daquele olhar me pressionava, familiar demais, complicado demais.
Virei a cabeça deliberadamente, ignorando o nó no estômago. Ele não tinha o direito de me olhar desse jeito. E eu não gastaria nenhuma célula do cérebro tentando entende-lo.
Não mais.
"Vamos," eu disse suavemente para a Maya, puxando-a em direção ao corredor. "Vamos sair daqui antes que alguém decida que eu preciso fazer malabarismo com espadas flamejantes."
Ela riu, enlaçando o braço no meu, e juntas escapamos da multidão crescente. O barulho foi se acalmando atrás de nós, substituído pelo silêncio fresco do corredor lateral. Finalmente, eu podia respirar.
Mas não dei mais cinco passos antes do Ethan aparecer, recostado casualmente na parede como se estivesse nos esperando o tempo todo.
"Ethan!" Maya ofegou, saindo do meu lado para ir até ele.
Os braços dele envolveram a cintura dela com uma naturalidade que fez um sorriso surgir no meu rosto. Ela se apoiou nele, com um sorriso largo: "Você viu aquilo?"
Ele assentiu, seu olhar fixo em mim, intenso de um jeito que fez a minha garganta apertar. "Eu vi." E então, calmamente, ele perguntou: "Por que você nunca me contou?"
"Contar o quê?" Perguntei, embora soubesse exatamente ao que ele se referia.
"Que você sabia atirar assim." A voz dele não estava zangada, mas sim surpresa e um pouco magoada. "Que você não era apenas uma arqueira razoável, mas... extraordinária. Esse tempo todo, você me deixou acreditar..." Ele balançou a cabeça, interrompendo-se.
Exalei e flexionei os dedos ao redor da sensação fantasma do arco. "Porque nunca foi sobre ser extraordinária. Nem mesmo sobre ser boa. Era uma maneira de passar o tempo."
As sobrancelhas dele franziram.
"Ninguém nunca me convidou pra brincar," continuei, com a voz mais suave e mais baixa. "Ninguém me queria no seu time. Então, enquanto você e a Celeste saíam com as outras crianças da Alcateia, e a Mãe e o Pai fingiam que eu não existia, eu praticava arco e flecha contra o velho muro do jardim. Várias vezes. Até eu conseguir acertar o alvo de olhos fechados. O que mais eu poderia fazer? Ficar sentada dentro de casa até desaparecer por completo?"
Uma sombra passou pela expressão dele.
Eu podia ver o entendimento afundando nele, inclusive as informações que eu não tinha dito explicitamente, mas que pairavam entre nós: a negligência, o isolamento, a crueldade silenciosa de ser constantemente ignorada.
"A Celeste e eu duelamos uma ou duas vezes, mas mesmo assim eu tive que fingir que era inferior, pra não ferir o ego gigantesco, porém frágil, dela."
Ethan cerrou a mandíbula. Sua habitual confiança vacilou e ele parecia preso entre as palavras e o silêncio.
"Eu não sabia," ele finalmente admitiu. "Seraphina... eu não sabia."
Forcei um sorriso, embora estivesse instável. "Não saber não muda nada."
Antes que o momento se prolongasse, uma voz familiar cortou a tensão.
"Aí está você."

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei