PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A aparição repentina do Lucian me congelou no meio de um passo e o meu corpo travou.
Meu primeiro instinto foi reagir, explicar alguma coisa, qualquer coisa, como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado. Me senti como uma adolescente cuja mãe entrou no quarto no pior momento possível e que escondeu o namorado no armário.
Meu coração disparou enquanto ele se aproximava e a minha mente começou a criar explicações para o fato do meu ex-marido estar nu atrás de mim e eu parecer ter sido intensamente beijada.
Mas a expressão do Lucian não era de desconfiança. Seu olhar percorreu o meu corpo de forma acerada e avaliadora, e então ele suspirou de alívio.
"Desculpa pela demora," ele disse, avançando para me envolver nos seus braços. "Mais renegados apareceram e levou mais tempo pra resolver tudo do que eu esperava."
Meu estômago revirou.
Claro. Os renegados.
Enquanto eu estava nos braços do Kieran, o Lucian lidava com o seu próprio caos e lutava por mim.
Ele poderia ter se machucado e lá eu estava, corada e me sentindo culpada por um beijo que nunca deveria ter acontecido, especialmente poucas horas depois do Lucian ter me pedido em namoro. Meu estômago embrulhou e achei que ia vomitar.
Eu me sentia péssima. O que tinha dado em mim? Por que deixei isso acontecer?
"Você tá bem?" eu perguntei, forçando minha voz a permanecer estável.
O cheiro familiar dele me envolveu e eu fechei os olhos, respirando fundo e esperando que isso afastasse o cheiro do Kieran que havia saturado os meus sentidos e não se dissipava.
Lucian se afastou suavemente, mas me segurou a uma certa distância, dando uma última olhada em mim.
"Nada com o que eu não pudesse lidar." Ele me ofereceu um sorriso largo, mas havia uma sombra no seu olhar que deixava claro que não tinha sido tão fácil quanto ele queria que eu acreditasse.
A culpa pesou ainda mais sobre mim.
Só porque o Kieran foi quem me tirou do SUV não significava que ele me salvou mais do que o Lucian, que por sua vez enfrentou os renegados no restaurante.
E eu tinha...
Droga!
"Você tem certeza de que tá bem?" As sobrancelhas do Lucian se franziram, formando um V profundo. "O que..."
Seu olhar desviou para algo atrás de mim e eu me enrijeci. Observei seus olhos ao encararem os malfeitores mortos atrás de nós. E o Kieran nu.
Mas, além do leve tique de um músculo na sua mandíbula, a expressão facial do Lucian não mudou.
"Kieran." Lucian assentiu, como lá no cinema, só que desta vez o gesto parecia rígido, forçado.
Um calor aqueceu o lado esquerdo do meu corpo e eu instintivamente mordi os lábios inchados pelo beijo quando a voz grave do Kieran ecoou pelo ar... e por mim. "Lucian."
Lucian arqueou uma sobrancelha. "Você fez isso?"
"Eu teria deixado alguns pra você se não tivesse demorado tanto."
Prendi a respiração com a clara conotação provocativa na voz do Kieran, mas o Lucian aceitou numa boa. Uma das suas mãos largou o meu braço e se estendeu em direção ao Kieran. "Obrigado por salvá-la."
Eu cerrei os dentes com tanta força que teria sido audível se a tensão entre os dois não estivesse zunindo a um volume ensurdecedor.
"Não fiz nenhum favor pra você," Kieran resmungou, sem apertar a mão do Lucian.
A mão do Lucian caiu ao lado do corpo e ele assentiu. "Mesmo assim, obrigado. Ela tá em boas mãos agora."
O resto da frase não foi dita, mas era audível. O Kieran podia ir embora.
"Sera?" Eu me encolhi com a maneira brusca que o Kieran disse meu nome.
Me obriguei a virar para ele e soltei um suspiro suave. Ele estava vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta que provavelmente deixava guardado no carro.
"Tô bem," eu disse suavemente. "Obrigada... de novo."
Os olhos escuros dele brilharam, tocando fundo no meu peito, mas ele desviou o olhar no segundo seguinte e foi para o carro dele sem dizer uma palavra.
Lucian e eu ficamos aparentemente paralisados no tempo enquanto observávamos o Kieran entrar no carro. O motor engasgou duas vezes antes de pegar.
Fiz uma leve careta quando ele passou por nós. Eu já tinha estragado o G-Wagon uma vez com o meu sangue e agora o para-choque estava destruído.
Parecia que eu estava respirando pela primeira vez em um bom tempo enquanto via as luzes de freio do Kieran encolherem até o tamanho de vaga-lumes e depois desaparecerem completamente.
"Sera?" O aperto gentil do Lucian me trouxe de volta ao presente.
Suspirei suavemente. "Tô feliz que você tá bem."
Os olhos do Lucian se suavizaram. Em seguida, a sua atenção mudou ligeiramente e o seu olhar deslizou sobre o meu corpo, pausando nos meus braços e na minha têmpora. Fiquei tensa.
Eu não sabia qual era o meu estado. Não conseguia mais sentir a dor dos ferimentos, mas conseguia sentir... um tipo de consciência em todos os pontos que machuquei e sangrei.
Pelo olhar nos olhos do Lucian, tive a sensação de que talvez ele também pudesse ver os vestígios.
"Você não tá machucada em nenhum lugar, n?" ele perguntou, com um tom de voz leve, mas com uma intensidade silenciosa que me fez pensar que ele já sabia a resposta.
Balancei a cabeça um pouco rápido demais. "Tô bem. De verdade. Só cansada."
"Bom." Ele abriu a porta do passageiro do Aston, segurando-a para mim como o perfeito cavalheiro que ele era. "Vou te levar pra casa."
O percurso começou silencioso, exceto pelo baixo ronronar do motor. Observei as luzes da rua passarem pelas janelas em listras borradas, com o brilho rítmico combinando com a batida inquieta do meu coração que acelerava mais a cada momento de silêncio. Senti a necessidade de preencher o ar com alguma coisa, qualquer coisa, antes que o peso das coisas não ditas me esmagasse.

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