PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Eu saí do carro da Maya antes mesmo que ele parasse completamente.
"Me avise como foi!" ela gritou para mim.
Acho que respondi para ela, mas não tenho certeza. Eu estava muito distraída tentando pegar o meu celular criptografado na bolsa sem tropeçar no degrau da entrada.
A voz da Leona ainda ecoava na minha mente. Achei que ela tinha ligado para se juntar ao tedioso coro de 'Fique longe do Kieran', mas o assunto da conversa foi muito mais devastador.
Eu ainda conseguia ouvir o leve tremor sob a habitual confiança dela.
"Eu ia ligar pro Kieran primeiro, mas o Daniel sempre teve um carinho especial por você, então pensei que talvez seria mais fácil ele se abrir com você..."
Aparentemente, o Daniel estava 'diferente' ultimamente. Não exatamente taciturno, mas... diferente. Reservado. Como se tivesse erguido um muro entre ele e o resto da casa.
Ela disse que ele ainda sorria, fazia as lições e mantinha uma conversa educada, mas a luz nos olhos do meu menino tinha diminuído.
E, então, a parte que me pegou profundamente: "Ele costumava ser tão aberto conosco, mas agora sinto que ele se fechou. Talvez você pudesse ter uma conversa sincera com ele. Você é a mãe dele, talvez ele te conte o que não quer contar pra mim."
Passei todo o percurso de volta para casa com uma mão invisível apertando a minha garganta.
Agora, o meu dedo pairava sobre o botão de chamada e o meu coração batia loucamente contra o meu peito. Era burrice, mas parte de mim estava... com medo.
Daniel era a única luz reluzente na minha vida. Se essa luz tinha se apagado...
Apertei o botão antes que pudesse me convencer do contrário.
Daniel atendeu no segundo toque e estava com a voz carregada do seu calor habitual: "Oi, mãe!"
Só assim a minha tensão diminuiu um pouco. "Oi, querido. Como vai a pessoa favorita da minha vida?"
Ele sorriu. "Bem, agora que tá falando com a pessoa favorita dele no mundo inteiro."
Recostei-me no assento, sentindo o alívio me inundar e dissipar o restante da tensão.
Por um tempo, trocamos conversa fiada sobre o que ele tinha comido no almoço ("A Vovó fez quinoa, que eu tenho certeza que é tipo uma comida de passarinho chique, mas tudo bem, porque o Vovô me deu um cachorro-quente depois"), como estavam indo as aulas dele ("Ciências e inglês estão de boa, mas acho que o meu professor nunca viu uma equação de matemática na vida"), como estavam indo suas aulas de surfe ("Peguei uma onda bem alta semana passada! Quer dizer, caí depois de trinta segundos, mas foi muito da hora!")...
Se a Leona não tivesse dito nada, eu poderia ter desligado pensando que estava tudo bem. Os olhos dele brilhavam com o mesmo brilho de sempre e ele parecia feliz. Parecia o Daniel, o meu menino.
Mas eu não conseguia desconsiderar as palavras dela e isso me deixou imprudente.
Então, sem pensar, eu disse: "A Leona comentou que você anda... mais quieto, mais distante. Tá acontecendo alguma coisa?"
O silêncio que se seguiu não era o meu filho procurando as palavras certas, era o tipo de silêncio pesado que se instala no momento em que você percebe que pisou em gelo fino.
Quando ele finalmente falou, seu tom era afiado de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes. E os seus olhos…
Minha respiração ficou presa enquanto o brilho se apagava, como se eu tivesse jogado um cobertor sobre um vaga-lume.
"Então foi por isso que você ligou, porque a Vovó disse que eu tô estranho?"
"Não..." comecei, mas ele falou por cima de mim.
"Sabe o que é estranho? Como os adultos na minha vida sempre decidem como eu tô me sentindo sem me perguntar primeiro. Você, a Vovó e o Pai... Vocês só decidem. Vocês decidiram me mandar pra cá sem perguntar. Toda vez que digo que quero voltar pra casa, vocês me prometem que vou voltar logo, mas já se passaram meses." A voz dele foi subindo e cada palavra apertava o meu coração como um torno. "Vocês já têm controle sobre o que acontece comigo. Onde eu moro, com quem eu moro, o que eu como. Nunca é sobre o que eu quero. Agora vocês precisam controlar também como eu me sinto?"
Meu coração apertou. "Daniel..."
"Quem é você pra decidir se eu me sinto estranho? Você e o Papai não estão felizes o tempo todo. A Vovó e o Vovô também não. Por que eu tenho que estar feliz o tempo todo?"
Foi como se uma cratera tivesse se aberto sob meus pés e eu estivesse me afogando em água gelada. Eu nunca tinha ouvido o Daniel falar assim antes.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei