PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Eu estava sentada na beira do tatame, ainda respirando pesado depois da última série de exercícios com a Maya.
A maioria dos outros alunos já tinha ido embora, então o salão de treinamento cavernoso para o qual nos mudamos parecia estranhamente quieto, envolto apenas pelo leve zumbido do sistema de ventilação e pelo som amortecido de alguém trabalhando com um saco de pancadas à distância.
Maya terminou sua série de flexões e se levantou com a graça de quem tem anos de disciplina e prática. Ela passou uma toalha pela testa e se posicionou na minha frente, sorrindo como se eu tivesse acabado de contar a melhor fofoca da semana.
"Então," ela disse, jogando a toalha em um banco, "você vai mesmo ver o Daniel. Já era hora."
"Sim," eu ri. "Mal posso esperar. Tô com tanta saudade dele."
O sorriso dela era sincero, mas os olhos mostravam uma pontinha de preocupação. "Você sabe que eu fico feliz por você," acrescentou, "mas, pelo que você me contou sobre os pais do Kieran, também fico preocupada que eles podem te dar trabalho. Você já tem muito problema aqui, com a sua própria família."
Disfarcei o aperto repentino no peito inclinando-me para pegar a minha garrafa de água no banco ao lado dela. "Eu sei lidar com eles."
"Eu sei que sabe," ela disse rapidamente. "Você consegue lidar com qualquer coisa. Mas isso não significa que gosto de te ver na toca do leão."
Tomei um longo gole e a água fresca aliviou a secura na garganta. "Eles podem até me menosprezar," eu disse, quando terminei. "Mas eles se comportam perto do Daniel." Dei de ombros. "Eles não arriscariam mostrar esse tipo de toxicidade pra ele. E, além disso..." permiti-me um pequeno sorriso irônico. "Eu não sou mais aquela boba de antes."
O sorriso da Maya se alargou e algo como orgulho brilhou nos seus olhos. "Claro que não é. Honestamente, nunca estive tão orgulhosa de você, querida, quanto agora, vendo como você tem encarado os problemas."
Minhas bochechas coraram. Qualquer elogio da Maya parecia uma grande conquista.
Ela continuou falando enquanto eu tomava outro gole de água e o restante da frase me pegou de surpresa. "Isso tá te fazendo super bem e, se o Kieran ainda não percebeu, ele é muito cego. Mas, um dia, o véu que cobre os olhos dele vai cair e, quando isso acontecer, ele vai se arrepender de ter se divorciado de você em troca daquela sua irmãzinha vazia."
Engasguei com a água, tossindo. "Maya! Não fale bobagens."
"Não é bobagem," ela disse, com um dar de ombros sem arrependimento.
Revirei os olhos e ela fez o mesmo, rindo. "Não importa. Aquele cretino não te merece, com ou sem véu."
Ela ergueu a palma da mão solenemente, como uma saudação. "Sou completamente do Time Lucian."
Tentei segurar o riso, mas escapou mesmo assim. "Você é terrível."
"Pois é. E você me ama mesmo assim."
Balancei a cabeça, mas o meu sorriso permaneceu. "Você realmente acha que o Lucian é a melhor escolha, né?"
A expressão dela suavizou, mas o tom continuou firme. "Acho que o Lucian te trata como se você importasse. E isso vale muito mais do que qualquer passado que você divida com o Kieran."
Não discuti porque ela estava certa. Estar com o Lucian era como uma brisa fresca e, em poucos meses, ele me tratou com mais respeito e consideração do que Kieran em dez anos.
Inclinei-me e abracei a Maya apertado. O cheiro do xampu cítrico dela era familiar e me trazia paz.
"Vou sentir saudades," murmurei. "Se cuida enquanto eu estiver fora."
"Você também, Sera." Ela se afastou e colocou as mãos nos meus ombros. "E, lembre-se, se alguém te aborrecer por lá, você tem muito mais força agora do que tinha da última vez que eles te viram."
As palavras dela aqueceram o meu peito como uma brasa e eu sorri, alimentando aquele fogo dentro de mim. Eu conseguiria... Eu conseguiria sobreviver à viagem.
Depois que nos despedimos, voltei para o vestiário para pegar o resto das minhas coisas que não queria deixar na SDS enquanto estivesse viajando.
Ao fechar o zíper da minha bolsa, peguei meu celular e procurei o nome do Lucian.
Eu não o via desde que ele me deixou em casa após o ataque dos renegados e, além da mensagem pedindo para eu tirar o dia de folga dos treinamentos, eu não tive notícias dele.
A Maya iria processar o meu afastamento da SDS, mas não parecia certo ir embora sem avisar ou pelo menos me despedir.
Liguei para ele e levei o telefone ao ouvido. Chamou. E chamou. E chamou mais um pouco. Então, caiu na caixa postal.
Franzi a testa e tentei novamente. Desta vez, foi direto para a caixa postal.
"Oi," falei após o sinal, tentando manter a voz casual. "Hum, você obviamente tá ocupado, então desculpe incomodar. Só queria te avisar que vou viajar pra ver o Daniel. Você não tá aqui na SDS, então não posso me despedir agora, mas... Me liga quando receber essa mensagem. Seria ótimo te ver antes de ir."
Desliguei, olhando para a tela. Era estranho o quão pouco eu sabia sobre a vida do Lucian fora da SDS.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei