PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Uma mistura de deleite e ansiedade nervosa encheu o meu peito quando o Lucian saiu do carro e veio na minha direção, com aquele caminhar elegante, cheio de precisão medida e confiança tranquila de sempre.
"Sera", ele disse, e o calor familiar da voz dele me fez esquecer momentaneamente a tensão que vinha se acumulando entre o Kieran e eu.
Mal tive tempo de reagir antes que ele eliminasse a distância entre nós e pude ver o pedido de desculpas já presente nos olhos dele.
"Desculpe não ter conseguido falar com você antes," Lucian disse rapidamente, quase tropeçando nas palavras. "Tive que fazer uma viagem pra outra cidade nos últimos dias, pra resolver assuntos da Alcateia, e só cheguei esta manhã. Eu..." Ele parou, limpando a garganta. "Eu deveria ter avisado você. Não queria te preocupar."
O alívio inundou-me tão depressa que quase me senti tonta. "Lucian... tá tudo bem," eu disse suavemente. "De verdade. Eu só tava preocupada porque não tinha notícias suas, só isso."
Dei a ele um sorriso reconfortante enquanto seu olhar permanecia em mim, pesado com arrependimento e sinceridade.
Os cantos da boca dele se elevaram levemente em resposta, formando quase um sorriso. Ele passou a mão sobre o queixo e assentiu. "Eu só... deveria ter te contado. Sei que isso não justifica o meu silêncio."
Balancei a cabeça. "Você tá perdoado," eu disse. "Sim, eu tava preocupada, mas entendo que você é ocupado."
"Não são ocupado quando se trata de você," ele retrucou.
O riso baixo do Kieran cortou o momento como uma foice.
Virei a cabeça bruscamente para ver que ele ainda estava encostado no carro, com braços cruzados e parecendo tão irritante quanto sempre.
"Desculpa," ele disse, sem soar nem um pouco arrependido. "Só tô tendo dificuldades para entender a sua desculpa." Os olhos escuros dele estavam fixos no Lucian. "Você estava em uma viagem pra tratar de assuntos da Alcateia em outra dimensão? No espaço? Debaixo do mar? Em alguma ilha flutuante distante sem sinal de celular?"
Cerrei os dentes, forçando a calma para esfriar a raiva que somente Kieran Blackthorne conseguia despertar em mim. "Kieran," eu disse com cuidado, "pode me esperar no carro? Só preciso de um minutinho."
Ele levantou uma sobrancelha, incrédulo, e pareceu que ia discutir, mas não dei essa chance a ele. Virei-me de costas para o Kieran e dediquei minha atenção ao Lucian. Seria a última vez que o veria por um tempo e eu não deixaria o Kieran arruinar o momento.
Lucian mexeu-se um pouco e desviou os olhos por cima dos meus ombros antes de voltar a me encarar. "Hum..." Ele limpou a garganta e pegou a minha mão, puxando-me gentilmente na direção do seu carro.
Eu me sobressaltei ligeiramente ao som estrondoso da porta do Kieran sendo batida. Respirei fundo, soltando o ar pelo nariz, enquanto o Lucian abria a porta traseira do carro, revelando um pacote grande e bem embrulhado que ocupava todo o banco de trás.
"Eu trouxe uma coisa pra você," ele disse, em voz baixa. "Um presente de despedida. Na verdade, é pra você e pro Daniel, uma coisa pra ajudar vocês a se aproximarem."
"Ah, Lucian," sussurrei, desviando o olhar do presente para encará-lo. "Isso é incrível, obrigada, mas," não deixei de notar como ele ficou tenso com a conjunção, "O Kieran pediu pra eu viajar sem muita bagagem." Na verdade, foi mais uma ordem do que um pedido, mas detalhes…
Quando o Lucian arqueou a sobrancelha, apressei-me em explicar. "Faz parte dos protocolos de segurança, pra evitar expor a localização do Daniel."
"Entendi," Lucian alongou as palavras, fechando a porta do carro.
"Mas, obrigada, de verdade," eu disse, sentindo-me péssima. "Talvez possamos usar quando o Daniel voltar."
"Claro," ele exalou, assentindo. "Com certeza."
Então, seu olhar suavizou, buscando o meu rosto. "Olha, Sera, o Kieran tinha razão. Eu não estava em um lugar sem sinal de celular."
Minha respiração parou. "Então por que você não atendeu as minhas ligações nem respondeu as minhas mensagens?"
Ele exalou profundamente. "Fiquei preso nos meus pensamentos durante essa viagem, me criticando."
Franzi a testa. "Por quê?"
Ele respondeu a minha pergunta com outra. "Sera, eu te decepcionei? Com os renegados, quero dizer?"
"Não," respondi imediatamente, estendendo a mão para ele. "Por que você pensaria isso?"
Ele balançou a cabeça. "Eu deveria ter sido o responsável por te salvar..."
"Você me salvou," eu disse. "Você enfrentou todos aqueles renegados no restaurante, me salvou no funeral do meu pai e, desde então, tem sido o meu grande salvador. Você me deu a SDS, me apresentou novos amigos..." Aproximei-me. "Me deu você."



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei