PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Eu deveria ter imaginado que o meu plano não sobreviveria ao primeiro contato com a realidade.
Ele durou apenas durante o voo de seis horas até Nassau, que passei no lado oposto do jato privado do Kieran, o mais longe possível do meu ex-marido.
Mesmo à distância, a presença do Kieran era intensa, ao mesmo tempo que contida e controlada, como um predador avaliando a sua presa. Só que eu não era a presa.
Foquei a mente no Daniel, na ilha à frente e na pequena centelha de calor do beijo do Lucian, que ainda estava presente no meu peito.
Mas tudo desmoronou depois que aterrissamos em Nassau e embarcamos no iate do Kieran, o 'Orgulho do Ashar', e então percebi algo novo sobre mim mesma: eu enjoo no mar.
O iate parecia ter saído de uma revista de luxo. O casco era branco marfim e brilhava sob o sol do meio-dia e os corrimãos eram cromados polidos e reluziam como joias contra a vastidão do oceano.
Mesmo do cais, era impossível não se impressionar. A embarcação era longa e graciosa, como um predador do mar, e, uma vez dentro, vislumbrei os interiores luxuosos: amplos sofás revestidos de couro creme, tapetes espessos sob os pés e um mesa de jantar que mais parecia destinada a banquetes do que viagens.
Kieran talvez não fosse um amante de festas extravagantes ou opulentas, mas definitivamente investia em algumas indulgências.
Entretanto, nenhum conforto luxuoso poderia me salvar.
Menos de uma hora depois de embarcar, o mar se voltou contra mim. O suave balanço que parecia agradável na costa se transformou em um ritmo nauseante que revirava o meu estômago a cada subida e descida.
Minha cabeça girava, minha pele ficou úmida de suor e toda a grandeza da madeira polida, dos lustres cintilantes e das janelas panorâmicas se desfocou em uma névoa de tormento.
Eu nunca tinha estado em uma embarcação antes. Se eu soubesse que o enjoo no mar era tão cruel, teria implorado para viajar de outra maneira, pelo ar, por terra, droga, teria ido a pé se fosse preciso.
Qualquer coisa menos essa oscilação interminável e nauseante.
O que mais me perturbava, porém, não era o enjoo. Era o Kieran.
Porque ele não me deixou sofrer. Ele não zombou, não caçoou, não me ignorou como o Kieran que eu lembrava da época do nosso casamento certamente teria feito.
Em vez disso, ele... cuidou de mim.
Ele segurou o meu cabelo quando me debrucei sobre a pia, tentando vomitar todas as minhas entranhas.
Ele me segurou quando eu tropecei, seus braços agindo como barras de ferro e me dando uma força que eu não pedi, mas à qual me segurei com firmeza.
Ele pressionou um pano frio na minha testa, afastou fios de cabelo úmidos de suor do meu rosto e murmurou palavras de conforto que eu mal consegui ouvir por causa do turbilhão na minha cabeça.
E, quando o médico do iate me trouxe uns comprimidos amargos e e farelentos que viravam uma pasta na minha língua, foi o Kieran quem insistiu que eu os engolisse.
"Toma, Sera," ele disse, em um tom que não deixava margem para discussão, embora sua mão sobre a minha fosse firme, não áspera.
Tentei protestar, já que uma pequena faísca teimosa dentro de mim se recusava a ceder à sua autoridade, mas o meu corpo me traiu. A fraqueza me deixou maleável.
Quando ele pressionou o copo de água nos meus lábios, eu bebi. Quando ele me levou de volta para a cama da cabine privativa, eu deixei.
Minha cabine era espetacular, tão ampla que envergonharia a maioria das suítes de hotel. As paredes eram revestidas em nogueira rica, a cama king size estava coberta com lençóis de seda em um tom creme suave e as janelas iam do chão ao teto, oferecendo a vista do oceano que se estendia infinitamente até o horizonte.
Era um luxo, mas, em vez disso, para mim, parecia uma armadilha suave e sufocante.
Kieran me deitou cuidadosamente na cama, amparando meu braço com a mão, como se tivesse medo de que eu desabasse novamente.
"Você precisa descansar," ele disse. Sua voz era calma, mas havia algo que eu não conseguia identificar. Não era uma ordem, nem irritação.
Era preocupação.
Eu o encarei, enevoada pela náusea e pela medicação, e imaginando se estava alucinando.
Em dez anos de casamento, ele nunca tinha direcionado sua preocupação para mim. Nem nos momentos de febre intensa. Nem quando eu chorava sozinha naquela nossa casa imensa. Nem quando a solidão e o desespero ameaçavam me devorar por completo.
E, ainda assim, lá estava ele, sentado ao meu lado como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo para ele, após o nosso divórcio finalizado e a nossa vida juntos desfeita.
Era quase cômico. Cruel demais.
"Você vai se sentir melhor depois que dormir," ele disse e, como não fechei os olhos imediatamente, ele suspirou e acariciou os meus dedos com o polegar.
O gesto foi tão delicado, tão incrivelmente íntimo, que pareceu abrir uma ferida.
E então o celular dele tocou.
O som agudo rompeu o silêncio da cabine, destruindo a estranha e frágil quietude entre nós.
Kieran ficou tenso. Seu olhar se voltou para a mesa de cabeceira, onde o aparelho vibrava insistentemente e a tela piscava com um nome que eu não precisava ver para reconhecer.
Celeste.
Senti como se tivesse levado um soco no estômago.
Ele me obrigou a deixar o meu celular em Los Angeles e me avisou para não passar o número do telefone criptografado para ninguém, tudo pela segurança do Daniel.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei