PERSPECTIVA DO KIERAN
As palavras da Celeste ficaram grudadas em mim muito depois de eu desligar, como uma mancha que eu não conseguia lavar.
'Finalmente ficaremos noivos oficialmente.'; 'Quero filhos, vários.'
Ela tinha falado com uma certeza tão contundente que era como se a decisão tivesse sido registrada em cartório.
E eu disse o que a Celeste queria ouvir só pra encerrar a ligação.
Mas, no momento em que desliguei, me peguei andando de um lado para o outro no estreito deck do lado fora das cabines, inquieto, o vento salgado fazendo pouco para esfriar o calor desconfortável que pesava sobre mim.
Eu não entendia por que estava me sentindo assim.
Casamento, filhos... eram coisas que eu queria com a Celeste, então por que a ideia gerava em mim a necessidade de tomar um remédio para enjoo?
Não que eu não quisesse mais filhos. Muito pelo contrário, eu queria uma família maior, uma casa cheia de risos. Mas...
Eu não conseguia entender por que a imagem da Celeste grávida de um filho meu parecia... errada. Estranha. Vazia.
Passei a mão pelo cabelo e soltei um palavrão frustrado.
Como algo que eu queria há tanto tempo de repente deixava um gosto tão amargo na minha boca?
Balancei a cabeça. Não precisava pensar nisso até voltar para LA. Até lá, eu tinha outras questões urgentes a tratar, como garantir que a Sera sobrevivesse a esta viagem.
Quando finalmente acalmei os meus pensamentos o suficiente para voltar para o quarto, caminhei em direção à cabine da Sera, ensaiando o que eu poderia dizer e qual desculpa daria pela demora.
Mas as palavras me escaparam quando a vi. Ela estava enrolada na cama, o remédio que a forcei a tomar a levando para o que parecia um sono inquieto.
A pele dela estava pálida e o cabelo úmido nas têmporas, mas seu peito subia e descia tranquilamente. Eu deveria ter saído imediatamente, afinal, finalmente ela estava dormindo e não precisava de mim por perto. Ainda assim, fiquei parado na porta, observando-a. Dez anos de casamento e eu nunca a tinha olhado assim de verdade. Antes, eu até cheguei a dar umas espiadas nela, mas estava cego na época, demasiadamente preso ao dever e extremamente consumido pela sensação de ter sido enganado.
A Celeste parecia ser o meu futuro e, quando fui obrigado a tomar a difícil decisão de me casar com a Sera, senti-me encurralado, castigado. Então, empurrei a Sera para as sombras da minha vida.
Voltando os meus pensamentos para o presente, sentei na beira da cama dela, tomando cuidado para não acordá-la, e comecei a pensar no que poderia ter sido.
'O Daniel vai adorar ser irmão mais velho, não acha?' E se o Daniel não fosse nosso único filho? E se eu tivesse dado a ela a família que merecia em vez de soterrá-la sob o silêncio e as paredes frias? O Daniel era minha cópia fiel. Se tivéssemos filhas, teriam os belos olhos da Sera? Seu queixo teimoso?
A dor no meu peito me surpreendeu e era tão aguda que precisei me levantar e recuar antes que me consumisse por completo.
Reflexões assim eram perigosas. Perigosas e inúteis, porque não tinha a menor chance de elas se tornarem reais, como eu garanti na noite em que olhei nos olhos da Sera e pedi o divórcio.
Agora, ela tinha a Lucian. Ele daria à ela a felicidade que eu nunca pude dar.
Ela não precisava de mim. Tudo que eu podia fazer era voltar para o meu próprio quarto.
Lá dentro, tirei a camisa e caí de costas sobre o colchão, olhando para o teto de mogno polido, cujos detalhes dourados refletiam a luz como constelações espalhadas pelo ambiente.
Embora fosse duas vezes maior, o quarto era quase igual ao da Sera, exceto por uma diferença: ela não estava ali comigo.
Soltei um gemido e fechei os olhos na esperança de conseguir dormir e empurrar todos esses pensamentos perigosos para os recantos mais escuros da minha mente.
Mas, então, o meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Quando o peguei e vi de quem era a mensagem, foi preciso toda a minha força de vontade para não jogar o aparelho pelo quarto ou pela janela aberta, no fundo do mar.
Deslizei o dedo para abrir a mensagem e congelei.
A Celeste me enviou uma foto antiga, cuja legenda dizia: 'Estamos tão fofos nessa! Devíamos colocar na seção de família do nosso álbum de noivado, não acha?!"
Eu estava tão ocupado analisando a foto que nem pensei que estava concordando com um álbum de noivado. Era uma daquelas reuniões de anos atrás, antes da confusão na Caçada da Lua de Sangue, quando nossas famílias ainda eram muito próximas e eu acreditava que a Celeste pendurava as estrelas no céu.
Ela estava radiante no centro da imagem, claro. Desde que conheci a Celeste, ela sempre foi o centro das atenções, como o sol em torno do qual tudo orbitava.
Mas o meu olhar não ficou preso a ela.
No canto da imagem, quase fora de vista, estava a Sera. Meio virada, no meio de uma risada, capturada em movimento.
Apesar da leve semelhança, a Sera sempre foi o oposto da irmã, quieta e discreta. Era como se vivesse em seu próprio universo particular.
Ela sempre... me intrigou.
O Ethan era o meu melhor amigo e as nossas famílias constantemente tentavam me juntar com a Celeste. De fala mansa, a Sera sempre foi um enigma, ridicularizada ou ignorada.
E ainda assim…
Balancei a cabeça, focando na foto.
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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei