PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A primeira coisa que percebi ao acordar foi a ausência de movimento.
O balançar violento de ontem e as ondas que me levaram à náusea, àquele estado de torpor medicado e aos braços do Kieran, tinha desaparecido.
O iate estava tranquilo, suave agora. Apenas o leve zumbido dos motores e o som abafado da água batendo no casco me lembravam que ainda estávamos navegando pelas águas marítimas de Exuma Sound.
Sentei-me com cuidado, testando para saber se o meu estômago me trairia novamente, mas o enjoo tinha se transformado em um eco fraco. Minha cabeça latejava levemente, como se eu tivesse acordado de uma noite de bebedeira.
Alguém bateu na porta da minha cabine.
Arrastei-me para fora da cama e ajeitei as minhas roupas antes de ir até a porta, desejando que fosse o Kieran e, ao mesmo tempo, esperando que não fosse.
"Lady Seraphina?" Era um dos tripulantes, um jovem com o nariz queimado de sol e os olhos arregalados demais. "Perdoe a interrupção, mas..." Ele hesitou, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. "Nós... não estamos conseguindo falar com o Alfa Kieran."
Minhas sobrancelhas se franziram. "Falar com ele?"
Ele assentiu rapidamente. "Tentamos o rádio dele, o intercomunicador. Sem resposta. Ninguém o vê desde a noite passada e estamos prestes a atracar. Os homens estão..." ele engoliu em seco, "preocupados."
Preocupados. Mas não o suficiente para checar.
Claro que não. Quem ousaria entrar no quarto do Alfa sem ser convidado? Ainda mais quando um único passo em falso poderia custar-lhes o pescoço?
"Eu vou dar uma olhada", murmurei, apanhando um roupão elegante que estava pendurado ao lado da minha cama.
O corredor tinha um leve cheiro de madeira polida e sal e o ar-condicionado brigava com o calor bahamense lá fora.
No final do corredor, a porta da cabine do Kieran se destacava. Era fácil perceber que era a dele: maior, mais escura, imponente mesmo em seu silêncio.
Bati na porta. Uma vez. Duas. Mais forte.
Nada.
"Típico," murmurei baixinho antes de pegar a chave reserva que o integrante da tripulação havia conseguido para mim.
Era quase cômico o quão apavorado ele estava ao me entregar a chave, temendo a ira de Kieran. Depois que prometi que ele não ia 'dormir com os peixes' tão cedo, ele cedeu.
A fechadura clicou suavemente e, antes que eu tivesse tempo de ponderar sobre todas as razões pelas quais isso era uma péssima ideia, entrei.
As cortinas estavam fechadas contra o sol da manhã, pesando o quarto com as sombras e um leve cheiro de suor.
Por um instante, o pânico me atingiu. O Kieran estava deitado na cama, imóvel, muito quieto.
Mas, então, seu peito subiu, rápido e errático, e o meu coração desacelerou.
Kieran Blackthorne, o temido Alfa da Alcateia NightFang, estava enredado nos lençóis como qualquer homem mortal. Seus cabelos estavam bagunçados, a testa úmida e os lábios entreabertos como se fizessem um pedido silencioso.
Eu confirmei que ele estava vivo e deveria ter ido embora naquele momento. Eu devia ter fechado a porta e o deixado imerso nas fantasias que o mantinham preso ao sono.
Mas alguma coisa me manteve no lugar, talvez os resquícios da ternura frágil da noite passada, talvez pura tolice.
Pior ainda, me aproximei, inclinando-me sobre ele. Seus cílios tremularam e seus lábios balbuciaram um nome que eu não consegui ouvir.
Kieran Blackthorne era de fato um homem belo. Mulheres pagavam uma fortuna por cílios como os dele, que projetavam sombras sobre suas maçãs do rosto esculpidas, suavizando a severidade de um rosto que costumava se tornar frio quando se voltava para mim.
A boca dele, com aqueles lábios que tinham pronunciado votos que ele nunca quis cumprir, era irritantemente perfeita, esculpida em tentação, mesmo quando entreaberta em um momento tão inocente quanto o sono.
Eu odiava o quanto era fácil imaginá-los na minha pele e como o meu corpo se lembrava do toque deles mesmo quando a minha mente queria esquecer.
O maxilar dele, definido e teimoso, carregava a mesma arrogância que ele exibia quando estava acordado, mas a barba por fazer captava a luz de um jeito que quase suavizava a sua expressão.
Quase.
Porque, mesmo nesse estado vulnerável, ele emanava poder... Um Alfa, inabalável, intocável.
Aqueles cílios tremulavam levemente, presos em um sonho que projetava uma expressão de desejo no seu rosto, e eu sabia que não era a mim que ele procurava no seu sono.
Essa percepção queimava mais do que qualquer chama, me lembrando do quão tola eu podia ser quando se tratava do Kieran.
Então, de repente, seus olhos se abriram.
E o que eu vi não foi raiva, desconfiança ou ordem.
Foi aquele mesmo desejo.
Cru. Desmascarado.
Meu estômago se apertou, mais frio agora do que no dia anterior, por causa do enjoo. Celeste. Claro.
Provavelmente ele estava sonhando com ela, ainda mais depois daquela conversinha melada que eu tinha escutado ontem.
A voz marota dela, falando de filhos. As promessas dele.
A lembrança embrulhou o meu estômago, queimando qualquer suavidade que a noite passada havia plantado.
Endireitei-me e o ar entre nós se tornou gélido. "Você acordou," eu disse friamente.
Ele piscou, devagar, desorientado. "Sera..."


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