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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 83

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

A primeira coisa que percebi ao acordar foi a ausência de movimento.

O balançar violento de ontem e as ondas que me levaram à náusea, àquele estado de torpor medicado e aos braços do Kieran, tinha desaparecido.

O iate estava tranquilo, suave agora. Apenas o leve zumbido dos motores e o som abafado da água batendo no casco me lembravam que ainda estávamos navegando pelas águas marítimas de Exuma Sound.

Sentei-me com cuidado, testando para saber se o meu estômago me trairia novamente, mas o enjoo tinha se transformado em um eco fraco. Minha cabeça latejava levemente, como se eu tivesse acordado de uma noite de bebedeira.

Alguém bateu na porta da minha cabine.

Arrastei-me para fora da cama e ajeitei as minhas roupas antes de ir até a porta, desejando que fosse o Kieran e, ao mesmo tempo, esperando que não fosse.

"Lady Seraphina?" Era um dos tripulantes, um jovem com o nariz queimado de sol e os olhos arregalados demais. "Perdoe a interrupção, mas..." Ele hesitou, mudando o peso do corpo de um pé para o outro. "Nós... não estamos conseguindo falar com o Alfa Kieran."

Minhas sobrancelhas se franziram. "Falar com ele?"

Ele assentiu rapidamente. "Tentamos o rádio dele, o intercomunicador. Sem resposta. Ninguém o vê desde a noite passada e estamos prestes a atracar. Os homens estão..." ele engoliu em seco, "preocupados."

Preocupados. Mas não o suficiente para checar.

Claro que não. Quem ousaria entrar no quarto do Alfa sem ser convidado? Ainda mais quando um único passo em falso poderia custar-lhes o pescoço?

"Eu vou dar uma olhada", murmurei, apanhando um roupão elegante que estava pendurado ao lado da minha cama.

O corredor tinha um leve cheiro de madeira polida e sal e o ar-condicionado brigava com o calor bahamense lá fora.

No final do corredor, a porta da cabine do Kieran se destacava. Era fácil perceber que era a dele: maior, mais escura, imponente mesmo em seu silêncio.

Bati na porta. Uma vez. Duas. Mais forte.

Nada.

"Típico," murmurei baixinho antes de pegar a chave reserva que o integrante da tripulação havia conseguido para mim.

Era quase cômico o quão apavorado ele estava ao me entregar a chave, temendo a ira de Kieran. Depois que prometi que ele não ia 'dormir com os peixes' tão cedo, ele cedeu.

A fechadura clicou suavemente e, antes que eu tivesse tempo de ponderar sobre todas as razões pelas quais isso era uma péssima ideia, entrei.

As cortinas estavam fechadas contra o sol da manhã, pesando o quarto com as sombras e um leve cheiro de suor.

Por um instante, o pânico me atingiu. O Kieran estava deitado na cama, imóvel, muito quieto.

Mas, então, seu peito subiu, rápido e errático, e o meu coração desacelerou.

Kieran Blackthorne, o temido Alfa da Alcateia NightFang, estava enredado nos lençóis como qualquer homem mortal. Seus cabelos estavam bagunçados, a testa úmida e os lábios entreabertos como se fizessem um pedido silencioso.

Eu confirmei que ele estava vivo e deveria ter ido embora naquele momento. Eu devia ter fechado a porta e o deixado imerso nas fantasias que o mantinham preso ao sono.

Mas alguma coisa me manteve no lugar, talvez os resquícios da ternura frágil da noite passada, talvez pura tolice.

Pior ainda, me aproximei, inclinando-me sobre ele. Seus cílios tremularam e seus lábios balbuciaram um nome que eu não consegui ouvir.

Kieran Blackthorne era de fato um homem belo. Mulheres pagavam uma fortuna por cílios como os dele, que projetavam sombras sobre suas maçãs do rosto esculpidas, suavizando a severidade de um rosto que costumava se tornar frio quando se voltava para mim.

A boca dele, com aqueles lábios que tinham pronunciado votos que ele nunca quis cumprir, era irritantemente perfeita, esculpida em tentação, mesmo quando entreaberta em um momento tão inocente quanto o sono.

Eu odiava o quanto era fácil imaginá-los na minha pele e como o meu corpo se lembrava do toque deles mesmo quando a minha mente queria esquecer.

O maxilar dele, definido e teimoso, carregava a mesma arrogância que ele exibia quando estava acordado, mas a barba por fazer captava a luz de um jeito que quase suavizava a sua expressão.

Quase.

Porque, mesmo nesse estado vulnerável, ele emanava poder... Um Alfa, inabalável, intocável.

Aqueles cílios tremulavam levemente, presos em um sonho que projetava uma expressão de desejo no seu rosto, e eu sabia que não era a mim que ele procurava no seu sono.

Essa percepção queimava mais do que qualquer chama, me lembrando do quão tola eu podia ser quando se tratava do Kieran.

Então, de repente, seus olhos se abriram.

E o que eu vi não foi raiva, desconfiança ou ordem.

Foi aquele mesmo desejo.

Cru. Desmascarado.

Meu estômago se apertou, mais frio agora do que no dia anterior, por causa do enjoo. Celeste. Claro.

Provavelmente ele estava sonhando com ela, ainda mais depois daquela conversinha melada que eu tinha escutado ontem.

A voz marota dela, falando de filhos. As promessas dele.

A lembrança embrulhou o meu estômago, queimando qualquer suavidade que a noite passada havia plantado.

Endireitei-me e o ar entre nós se tornou gélido. "Você acordou," eu disse friamente.

Ele piscou, devagar, desorientado. "Sera..."

Sua boca encontrou a minha com força, sem trégua, uma tempestade para a qual eu não estava preparada.

O calor explodiu, queimando até o fundo do meu ser e me arrastando de volta até memórias que eu mal conseguira enterrar e emoções que eu ainda não conseguia entender.

Por um instante, apenas um, quase retribuí o beijo.

Quase.

Mas, talvez, eu ficasse mais lúcida no mar do que em terra firme.

Em uma demonstração de autocontrole digna de prêmio, meus dentes se cravaram no lábio inferior dele, fortes o suficiente para arrancar um grunhido surpreso. Eu o empurrei com força e percebi a minha respiração ofegante enquanto ele cambaleava para trás.

"Não." Minha voz tremia, mas impus firmeza nela. Fitei um ponto no carpete macio entre os pés descalços dele. "Não perca a cabeça, Kieran. Não agora. Não aqui."

De novo, não.

A mão dele agarrou o meu pulso, mas eu consegui me soltar, me afastando até fora do seu alcance. Meu coração estava disparado e eu não conseguia encará-lo diretamente.

"O navio está prestes a atracar," eu disse, tão friamente quanto consegui. "O Daniel estará esperando no cais. Não vou permitir que ele nos veja assim, brigando, ou... pior." Até porque o outro lado dessa dança enlouquecedora entre desejo e desprezo era ainda pior. "E não vou dar motivos pra que ninguém neste iate comece a espalhar boatos."

O maxilar do Kieran se contraiu, os dentes se cerraram e os olhos escureceram com um desejo que eu me recusava a reconhecer, mesmo que esse mesmo desejo também pulsasse em mim, tão inegável quanto o pulsar do meu próprio coração.

Mantive minha posição. "Não vou aceitar as coisas passivamente como antes. Mantenha distância, Alfa."

A menção ao título foi proposital e cortou o ar entre nós.

Sem esperar pela resposta dele, fui até a porta com a coluna ereta. Minhas mãos tremiam, mas eu não deixei que ele visse.

A luz do sol no convés era ofuscante, brilhando sobre as águas turquesa que se estendiam infinitamente ao nosso redor. Adiante, o cais surgia imponente e, além dele, felizmente, estava o meu filho.

Daniel estava ao lado de um segurança e acenou assim que me avistou. Seu rosto pequeno se iluminou e algo dentro de mim se abriu completamente.

"Mãe!", ele gritou, sua voz ecoando sobre a água.

Mal ouvi os motores diminuindo ou os gritos da tripulação se preparando para atracar. No momento em que o iate tocou o cais, eu já estava me movendo. Desci a prancha, cruzei o último trecho de madeira e fui até os braços dele.

Daniel correu até mim, quase me derrubando com a força do seu abraço. Eu me ajoelhei, apertando-o com força e inalando o cheiro quente e familiar do meu garoto.

"Eu senti tanto a sua falta," sussurrei contra o cabelo dele, com a voz falhando.

Ele me apertou também com os seus bracinhos firmes. "Eu também."

Aquele momento, enquanto eu o segurasse, nada mais importaria.

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