POV/ ADRIAN
O lugar, o ar pareciam ter ficado mais denso, saturado de um perfume que eu odiava. Sarah se serviu e bebeu champanhe com a mesma elegância aristocrática e blasé de dez anos atrás. Ela se movia como se nunca tivesse ido embora, como se não tivesse deixado um rastro de destruição, abandono e traumas incuráveis na minha vida e na alma das minhas filhas.
— Por que você voltou, Sara? — minha voz saiu baixa, gélida, carregada com a autoridade do Imperador que não aceita insolência ou invasões em seu território sagrado.
— Eu voltei porque senti falta de ser mãe, Adrian — ela disse, após um gole lento da bebida cara. Seus olhos claros brilhavam com aquela falsidade cristalina que um dia, na minha juventude idiota, eu confundi com amor, mas que hoje apenas me causava náuseas profundas.
Eu soltei uma risada seca, um som desprovido de qualquer rastro de humor, que ecoou pelas paredes decoradas da sala como um escárnio.
— Mãe? Você não tem o direito de pronunciar essa palavra — cuspi as palavras, sentindo o gosto amargo da bile. — Você foi embora porque não suportava a realidade da vida. Você reclamava do choro, reclamava do cheiro, reclamava que a maternidade estava "estragando sua estética". Você preferiu as luzes de Paris, as festas em iates e o luxo de outros braços que não os meus. Cadê o César? O homem por quem você me trocou quando nossas filhas ainda eram bebês?
— Nós terminamos — ela deu de ombros, com uma indiferença que me deu vontade de quebrar tudo ao meu redor. — As coisas mudam, Adrian.
— Você está precisando de dinheiro, não é? No fim, é sempre sobre as cifras — caminhei até a escrivaninha de madeira maciça, meus passos pesados. — O seu padrão de vida é alto e a fonte de otários deve ter secado na Europa. Quanto? Diga o valor, Sara. Diga quanto custa o seu sumiço definitivo e eu assino o cheque agora mesmo. Eu compro a sua ausência, assim como você vendeu a sua presença anos atrás.
Sara se moveu com uma lentidão provocante, caminhando até mim, o tilintar das joias dela era como um ruído de correntes.
— Nem todo o seu dinheiro, nem toda a fortuna do Imperador, me faria ir embora agora, querido. Algumas coisas, Adrian, não têm preço. Elas têm tempo.
— O que é isso? — a pergunta saiu quase em um sussurro, minha raiva murchando instantaneamente, substituída por um pressentimento gélido que fez os pelos do meu braço se arrepiarem.
— O meu prazo de validade, Adrian — ela disse, com a voz falha, enquanto limpava o rastro de sangue do canto da boca com as costas da mão trêmula. — Eu tenho câncer. Estágio quatro. Metástase pulmonar. Os médicos me deram seis meses, se eu tiver sorte.
Num gesto lento, quase ritualístico, ela levou a mão à cabeça e removeu a peruca loira impecável. O que vi embaixo me chocou mais do que qualquer ameaça de morte que eu já recebi no submundo: o couro cabeludo quase calvo, com fios ralos e sem vida, marcado pelas cicatrizes químicas da quimioterapia e por uma palidez de quem já está com um pé na cova.
— Eu não voltei pelo seu dinheiro — ela continuou, a voz agora um fio de vida. — Voltei porque, antes de virar cinzas em um pote qualquer, eu quero que minhas filhas lembrem do meu rosto. Quero que elas tenham uma memória de mim que não seja uma foto velha. E quero passar meus últimos dias como a mulher do Adrian Cavallieri. Porque, no fundo, Imperador, você sabe que eu fui quem te moldou. E você me deve isso.

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