Pov Adrian Cavallieri
A neve batia no vidro como se quisesse atravessar o arranha-céu. Moscou sempre teve um jeito frio de existir, mas naquele dia parecia ainda mais cinza… talvez porque minha cabeça também estava.
Eu não deveria estar pensando nela.
Na garota da blusa molhada.
No jeito como as minhas filhas riram com ela.
Ou nas pernas grossas que ela tinha.
Impossível.
Porra… mas não era impossível.
Desde que deixei o Brasil, minha mente não ficou silenciosa nem por um minuto.
— Senhor Cavallieri? — alguém murmurou ao meu lado.
Pisquei. Mathew meu assistente me olhava como quem chama um cachorro bravo sem querer levar uma mordida.
— Eles já estão aqui — insistiu.
Assenti sem vontade, endireitei o terno, respirei fundo e entrei na sala.
Azazel Kolovisk estava lá.
Enorme, volumoso, terno cinza claro, expressão de quem nasceu acreditando que todos deveriam lhe dever alguma coisa. Sobrancelhas grossas, feitas para intimidar.
— Cavallieri… finalmente — disse, com o sotaque arrastado.
Olhei o relógio.
— Я не опоздал. Вы опоздали.
(Eu não estou atrasado. Você está.)
Ele não gostou.
E eu gostei que ele não gostou.
Azazel empurrou um tablet para mim como se me oferecesse ouro.
— Novo software. Queremos sua assinatura imediata.
Imediata.
Russos sempre assim: exigem, pressionam, fingem.
Passei os olhos pelo código. Senti minha têmpora latejar.
Código já decodificado.
Fragmentos do governo russo.
Linhas escondidas, adulteração criminosa.
Se eu assinasse aquilo, a TechGlobal seria investigada em menos de vinte e quatro horas.
Fechei o tablet devagar.
— «Ваш софт грязный.» — avisei, a voz baixa e cortante. — «Это код правительства.»
(O seu software está comprometido. Esse código tem traços do governo.)
Azazel esticou o pescoço.
— Ты уверен?
(Você tem certeza?)
— Tenho certeza — respondi em português.
Azazel afastou a cadeira.
— É apenas uns endereços Cavallieri. Ninguém vai notar.
Eu ri. Baixo. Perigoso.
— Ninguém? Eu notei.
Ele deu de ombros, insolente.
— A Rússia é grande. Problemas desaparecem.
Inclinei-me sobre a mesa.
— O problema vai ser você se insistir nisso. Não quero encrenca com governo. Pago meus impostos corretamente para nunca ter nenhum tipo de dor de cabeça.
Azazel bufou.
— Cavallieri, você é um homem importante. Multiplicou a herança do seu tio, construiu um império, fala sete idiomas, é dono da maior empresa de tecnologia financeira da América Latina. A Receita não vai te pegar.
— «Я уже сказал нет.» — levantei-me, ajeitando o paletó devagar. — «Мне нужен настоящий.»
(Eu já disse não. Só o código verdadeiro me interessa.)
Os executivos trocaram olhares. Até dava para ouvir o suspiro do meu assistente.
Azazel dedilhou os dedos na mesa.
— Assine e ganhe milhões. Recuse e ganhe um problema.
Soltei o ar devagar.
Peguei o contrato.
Olhei.
E rasguei.
Primeiro em dois.
Depois em quatro.
Depois em oito.
Os pedaços caíram como neve pelo chão da sala.
O rosto Azazel se contorceu, um espasmo que denunciou a fúria antes mesmo que ele abrisse a boca.
— Ты сошёл с ума?!
Para um alvoroço daquele tamanho na minha mente.
Eu mandei o motorista levá-la embora porque era o que eu precisava fazer.
Porque, se ela ficasse cinco minutos a mais…
Eu a teria levado para o subsolo no Ambrosia Club.
E isso seria um desastre.
Eu devia tê-la dispensado. Devia tê-la esquecido.
Mas pedi à Adelaide que a chamasse de volta. Dei roupas novas. Dei um celular. Emprestei meu motorista. Até organizei outra pessoa para cobrir os dias da faculdade dela. Eu estava sendo condescendente demais.
Generoso demais.
Eu não sou assim.
Funcionários me cansam. Pessoas me irritam. Tempo é caro. Dinheiro é ferramenta.
Ela não faz meu tipo.
Não é do meu mundo.
Não tem classe, não tem postura, não tem nada do que eu costumo querer.
E mesmo assim…
Porra.
Acho que estou ficando louco.
O elevador abriu. Fomos até o carro.
A neve ainda caia e batia na lataria enquanto eu entrava na SUV blindada.
— Aeroporto? — perguntou o motorista.
— Aeroporto.
Quando o jatinho apareceu, com as luzes acesas na pista congelada, a única coisa que pensei foi:
Eu precisava gastar tensão. Não tinha dormido. Não tinha descansado. E o jet lag, somado à merda daquela reunião com Azazel, tinha deixado minha cabeça latejando como um motor superaquecido.
Olhei o relógio.
Duas da tarde em Moscou.
Se eu embarcasse agora, chegaria em Porto Alegre perto da meia-noite, quando o Ambrosia estaria no horário de pico Peguei o celular e escrevi para Eleonora.
(Separe uma nova para mim. Quero algo diferente. Hoje. Devo chega por volta de 1hr)
Ela respondeu em menos de um minuto.
“Temos uma. Codinome: Kiwi. Vai gostar.”
Kiwi.
No Ambrosia, nenhuma funcionária usava o próprio nome. Todas recebiam codinomes uma tradição antiga do clube. As que trabalhavam no nível sensorial, sem sexo, ganhavam nomes de comidas como doces; as do sexo explícito recebiam nomes de animais. E havia as frutas para as Sommelier, e algumas frutas exóticas reservadas para mulheres de beleza marcante ou diferente: ruivas, negras, asiáticas, loiras com os olhos claros. Como o nome sugeria, Kiwi provavelmente seria deliciosa. Boa para distrair a mente.
Eu precisava disso.

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