POV/ CLARA
— Tem certeza disso, Clara? — Isadora perguntou enquanto fechava a última mala no nosso apartamento. — A gente pode só sumir daqui agora.
— Eu preciso me despedir delas, Isa. Elas são a única parte real e pura disso tudo.
Fomos até a escola de elite por volta das 12h. O ar estava saturado com o cheiro de giz, asfalto quente e o perfume doce das lancheiras. O primeiro dia de aula era um caos vibrante de mochilas coloridas e risadas agudas que cortavam o céu azul de Porto Alegre. Avistei as duas de longe, com os uniformes impecáveis, e meu coração deu um solavanco tão forte que minhas costelas protestaram. Elas vieram correndo, dois pequenos furacões.
— Clara! Você voltou! — Geovana gritou, enterrando o rosto na minha cintura. O nó na minha garganta era uma corda apertada, me impedindo de respirar.
— Eu estava com tanta saudade! — Ângela exclamou, apertando meu braço como se testasse se eu era real.
Abracei as duas com uma força desesperada, fechando os olhos e sugando o cheirinho de shampoo de maçã e inocência.
Caminhamos devagar até uma árvore próxima, enquanto a porta da escola ainda despejava aquele burburinho típico de saída. Sentamo-nos ali e conversamos um pouco. Elas falavam ao mesmo tempo, uma confusão adorável sobre a professora nova, o lanche e um trabalho de artes que teriam que entregar. Também me contaram sobre o pai e sobre a mãe, que quase morreu.
Disseram que estava com saudades, disseram que a mãe da Adelaide estava melhor, disseram que sentiram minha falta na hora de comprar os materiais escolares. E que o Pai mais a mãe delas compraram da Cinderela para Ângela e da Branca de Neve para Geovana. E estava errado porque Angela queria da Bela e a fera e a Angela queria da pequena sereia.
Eu ri dos problemas delas. Irônico. Mas tão fofas. Q fiquei de joelhos e as beijei e as abracei num gesto impossível.
Eu que nem gostava de crianças agora estava ali achando que não sobreviveria a distância e morreria de saudades.
Eu ouvia tudo e sorria, fazia perguntas como eu estava com saudades dos meus amorezinhos.
O motorista esperava um pouco afastado, observando o movimento da calçada onde pais esperavam e o vendedor de picolé gritava seus preços no trânsito lento de Porto Alegre.
Eu estava prestes a me levantar quando o ar pareceu congelar. Sabe aquele instinto animal? Aquele arrepio gélido que sobe pela espinha antes do desastre, como se o corpo soubesse que a morte está por perto?
Chegou a hora. Eu precisava ir antes que as lágrimas me traíssem de vez. Caminhamos até o carro e eu me abaixei para ficar da altura delas, segurando suas mãozinhas.
— A gente vai se ver de novo! Eu prometo — sussurrei, dando um beijo na testa de cada uma.
O barulho das crianças ao redor sumiu, engolido pelo som lúgubre de pneus fritando no asfalto.
— Agora entrem no carro, meninas! Agora! — minha voz saiu bastante aflita.
Ângela revirou os olhos com aquele jeito de pré-adolescente, e Geovana riu. Eu me virei para abrir a porta do carro.
Um ronco agressivo de motor. Uma freada violenta que fez o asfalto chiar.
Meus olhos se estreitaram por reflexo. Um carro preto atravessou a via, fechando o trânsito como uma barreira de aço. Outro veio logo atrás.
As portas se abriram antes mesmo dos pneus pararem de girar. Homens armados e encapuzados saltaram.
— NO CHÃO! TODO MUNDO NO CHÃO! — o grito rasgou o ar.
Outro homem atirou para cima uma, duas, três, e tudo virou uma euforia.
Gritos. Correria desenfreada. Mochilas sendo abandonadas no chão. Vi um homem tropeçar e cair, uma mulher gritando o nome da filha com um desespero que me atravessou. O portão da escola virou um funil de terror. “Parecia aquelas cenas de filmes de invasão zumbi. Todo mundo correndo para sobreviver.
Cap. 127-
Meu coração estava disparado, batendo contra as costelas como um animal encurralado. Eu não pensei. Empurrei Ângela para dentro do carro e quando ouvi um tiro me ajoelhei no mesmo segundo, puxando Geovana para baixo e cobrindo a cabeça dela com o meu próprio corpo.
— Fica abaixada! Não olha! — sussurrei, sentindo minha voz falhar.
Outro tiro. Depois outro. O barulho vibrava dentro do meu peito, fazendo meus dentes baterem. Geovana tremia inteira sob mim.
— NÃO TOCA NELAS! — gritei até minha garganta arder. — NÃO TOCA NAS CRIANÇAS!
Alguém agarrou meu braço por trás, torcendo-o com força. Senti o cano frio e metálico da arma ser pressionado contra as minhas costelas. Congelei. O gelo do aço pareceu sugar todo o calor que restava no meu corpo.
— Grita e você morre. Mexe e você morre — o sequestrador sussurrou no meu ouvido.
Olhei para Ângela e Geovana. As duas choravam com os olhos esbugalhados, perdidas no pavor. Engoli meu próprio choro, forçando uma calma que eu não tinha.
— Está tudo bem… eu tô aqui… não soltem minha mão… — entrelacei meus dedos nos delas.
Fomos empurradas para dentro do furgão com uma brutalidade que me fez atingir o chão de metal. O motor rugiu e as portas bateram com um som seco e definitivo. O carro arrancou, jogando nossos corpos contra o banco enquanto os pneus fritavam no asfalto.
Pelo vidro escuro, vi a escola ficando para trás e, no meio da confusão, juro que vi o vulto desesperado de Isadora no meio da rua, com as mãos na cabeça. Foi a última imagem de liberdade antes da porta do inferno fechar.
— Calma, meninas... eu estou aqui... — sussurrei, tateando as mãos delas no escuro.
— Agora vocês vão dormir — a voz fria ordenou vinda do banco da frente.
Antes que eu pudesse reagir ou formular um protesto O capuz foi jogado sobre minha cabeça. Escuridão total. Abafada. O ar ali dentro era escasso, carregado com o cheiro de poeira e medo. Senti uma mão bruta segurar minha nuca, os dedos enterrando-se na minha pele como garras, e um pano encharcado foi prensado contra o meu rosto.
O cheiro químico, adocicado e enjoativo do clorofórmio queimou minhas narinas instantaneamente, invadindo meus pulmões como um gás tóxico. Tentei prender o fôlego, lutei para desviar o rosto, mas a mão dele era uma prensa de aço. A cada miligrama que eu inalava, meus membros pesavam como se tivessem virado chumbo.
A resistência deu lugar a uma moleza letárgica, um formigamento que subia pelos meus braços. Ouvi, como se estivessem a quilômetros de distância, os leves grunhidos e, depois, o silêncio repentino de Ângela e Geovana perdendo a consciência ao meu lado. Aquele silêncio me doeu mais que o cano da arma nas costelas.
Meu coração bateu uma última vez contra o peito um tambor descompassado, abafado e dolorido. O mundo girou, as vozes dos russos viraram um zumbido sem sentido e minha consciência simplesmente se esvaiu no vazio.
FIM;; POV CLARA

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