POV — Adrian
O silêncio do quarto de hotel em Goiânia foi o maior momento de paz que tive em anos. Ver Clara dormindo, com o rosto sereno após uma noite de entrega absoluta, quase me fez acreditar que eu poderia ser apenas o Adrian. Não o Imperador, não o CEO, nem o carcereiro de uma mulher moribunda. Apenas um homem amando uma mulher.
Fui ao banheiro e o visor do meu celular iluminou a bancada, vibrando como um aviso de execução. Doze chamadas perdidas da Sarah. Ignorei com um rosnado. Eu a odiava por cada mentira, pelo teatro que me obrigava a encenar para manter as aparências diante da sociedade e das minhas filhas. Mas quando o nome de Mathew surgiu na tela, o ar no meu peito pareceu rarefeito. Atendi.
— Fala.
— Finalmente, hein? — a voz de Mathew era tensa, desprovida de qualquer ironia. — O caldo azedou, Adrian. A Sarah desmaiou na frente das meninas. Muita hemorragia. Ela foi entubada no caminho, está na UTI. As meninas estão em choque... elas não param de procurar por você.
O mundo girou sob meus pés. Olhei pelo reflexo do espelho para a cama, para a Clara. O contraste entre o calor daquela pele que eu acabara de beijar e o frio cortante da notícia me deu náuseas. Movimentos mecânicos. Vesti a roupa sentindo o tecido pinicar a pele sensível, o coração batendo na garganta enquanto minhas mãos suavam.
Eu queria acordá-la. Queria dizer: "Clara, eu amo você, mas minhas filhas precisam de mim e eu preciso ir". Mas as palavras morriam na minha garganta. Como explicar a podridão da minha vida para alguém tão pura? Como dizer à mulher que eu reivindiquei que minha vida é um labirinto de tragédias e que a mãe das minhas filhas está morrendo enquanto eu me perdia no seu corpo?
Eu tive medo. Um medo covarde e paralisante. Medo de que, se ela visse o tamanho da minha bagagem, fugiria antes mesmo de eu chegar ao aeroporto. Eu a conhecia; sabia que ela já fora ferida demais por homens que prometiam proteção e entregavam dor. Se eu contasse, ela não veria um herói indo salvar as filhas; ela veria um homem quebrado, amarrado ao passado. Saí sem olhar para trás, como um ladrão que rouba a própria felicidade.
No jato, o trajeto para Porto Alegre foi um suplício. Eu achava que tinha o controle do tempo. Eu não tinha nada. O motor da aeronave parecia zombar da minha impotência.
Cheguei ao hospital com a alma em frangalhos. A visão de Ângela e Geovana sentadas naquelas cadeiras frias, usando vestidinhos azuis com flores que eu mesmo ajudei a escolher, me quebrou ao meio. Tão fofas, mas com os olhos tão inchados que pareciam duas pequenas feridas abertas no rosto da minha consciência.
— Onde você estava, pai? — Ângela perguntou sem olhar para mim, mexendo as mãozinhas nervosamente.
— Você não acha que uma conversa resolveria os problemas?! — Isadora fez uma pergunta retórica, bufou e desligou o telefone na minha cara.
E eu juro que eu sabia que poderia resolver. Mas o pior era o medo: e se ela não me quisesse mais? E se ela não tivesse paciência para aceitar as nuances da minha situação? Eu não podia simplesmente contar e esperar que ela aceitasse ser o "porto seguro" de um homem cercado por tragédias. Eu não queria que ela ficasse por pena. Eu não queria que ela se sentisse obrigada a suportar a sombra da Sarah.
Eu a deixei livre para escolher, mas o preço dessa liberdade era o escuro onde eu a lancei. Se ela me amasse como eu esperava que me amasse, ela teria que entender. Mas a verdade é que eu não sabia se eu mesmo me entenderia.
— Droga! Porra!!! — Soquei a parede atrás de mim várias vezes, ignorando a dor física que era infinitamente menor do que a dor de perder o controle.
Os nós dos meus dedos ficaram feridos, o sangue sujando o papel de parede estéril do hospital. Eu era o Imperador de Porto Alegre, mas ali, naquele corredor frio, eu era apenas um homem perdendo a única mulher que me fez sentir vivo, enquanto tentava não falhar com as únicas crianças que me chamavam de pai.

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